25 de Abril
Venho desejar a todos que o cheiro da Liberdade de Abril continue sempre a perfumar o dia 25. De certeza que trinta e cinco anos atrás, muitos dos leitores deste blog viveram este dia em cheio, que o esperavam e o aguardavam! Eu, na altura era demasiado pequeno para perceber o que se estava a passar. No meio em que vivia, o obscurantismo e a longa noite fascista tudo ofuscara, tudo cegara e amedrontara. Ninguém sabia o que estava a acontecer, ninguém sabia que a revolução cheirando a cravos chegara à rua, que a Liberdade vencera a tirania.
Por isso hoje, continuo a deixar aqui os parabéns e o meu agradecimento a todos que de alguma forma com as suas ideias, com os seus protestos, com os seus pensamentos contribuíram para que este cheiro a Liberdade chegasse até nós. Deixo-vos também aqui o meu desejo e a minha esperança que as actuais gerações e as gerações vindouras consigam preservar e continuar a apreciar condignamente o que realmente significou
ABRIL.
Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009
XVIII-ELA, O GATO, A MOLDURA….(III)
Fazia nesse dia nove meses e alguns dias que o gato não saía de casa.Não que estivesse preso simplesmente porque chegava à porta miava e voltava para trás. Nesse dia ainda a madrugada não fechara portas quando ele miou como nunca o ouvira fazer.
Acordou meio assustada, sobressaltada, sem saber porquê, achou que aquele iria ser um dia diferente.. Uma grande e redonda lua espreitava altiva no rendilhado azul-escuro do céu. Parecia-lhe hoje mais redonda e amarela do que nunca..Desde aquele dia em que se vestira de negro que andava cismando na vida. Levantava-se normalmente cedo, angustiada pela ausência do passado. Dava voltas e voltas pela casa arranjando tudo o que estava arranjado e fazendo tudo o que estava feito. Tirava o pó das molduras, na casa de banho a torneira voltara a pingar e na cozinha a torradeira tinha avariado.. num canto o bolor aparecia : verde, parecido com aqueles limos que a maré por vezes trazia agarrada à saudade.
As molduras na parede…..encanecidas, enrugadas, calejadas de cal e saudade..A gravatinha e o livro! O dia da primeira comunhão. Ele de fato, o casaquinho com as flores bordadas…!
Limpou-as novamente, cuidadosamente...com a alma escorrendo lágrimas.
Espreitou a rua, o céu o mar.. A lua desaparecera como que por milagre..e um alaranjado ténue anunciava que o sol iria talvez brilhar..
Roçou-se-lhe nas pernas, cabeceou-a com mais força, insistiu. Miou com força, mais força ainda. O gato! Que queria o gato..Estava diferente, olhava-a diferente. Nunca mais andara assim desde que voltara com eles na alma, nos olhos! Nove meses e alguns dias..
Abriu a porta e teve a certeza que aquele dia acordara diferente. Era o dia..!
O gato olhou-a sorrindo, remando com os olhos, e nove meses e alguns dias depois, ao abrir da porta, miando ao escurecer do esconder da lua e ao amanhecer do acordar do sol, saiu correndo, levando com ele os dois e remando..remando em direcção à lua. À lua...
Chegara a hora! Regou pela última vez as flores, encostou à parede caiada a cadeira com cuidado e saltou para a moldura. Aconchegou o casaquinho bordado e carinhosamente como um dia fizera, endireitou-lhe a gravata e ajeitou-lhe no braço o livrinho da primeira comunhão ….
Acordou meio assustada, sobressaltada, sem saber porquê, achou que aquele iria ser um dia diferente.. Uma grande e redonda lua espreitava altiva no rendilhado azul-escuro do céu. Parecia-lhe hoje mais redonda e amarela do que nunca..Desde aquele dia em que se vestira de negro que andava cismando na vida. Levantava-se normalmente cedo, angustiada pela ausência do passado. Dava voltas e voltas pela casa arranjando tudo o que estava arranjado e fazendo tudo o que estava feito. Tirava o pó das molduras, na casa de banho a torneira voltara a pingar e na cozinha a torradeira tinha avariado.. num canto o bolor aparecia : verde, parecido com aqueles limos que a maré por vezes trazia agarrada à saudade.
As molduras na parede…..encanecidas, enrugadas, calejadas de cal e saudade..A gravatinha e o livro! O dia da primeira comunhão. Ele de fato, o casaquinho com as flores bordadas…!
Limpou-as novamente, cuidadosamente...com a alma escorrendo lágrimas.
Espreitou a rua, o céu o mar.. A lua desaparecera como que por milagre..e um alaranjado ténue anunciava que o sol iria talvez brilhar..
Roçou-se-lhe nas pernas, cabeceou-a com mais força, insistiu. Miou com força, mais força ainda. O gato! Que queria o gato..Estava diferente, olhava-a diferente. Nunca mais andara assim desde que voltara com eles na alma, nos olhos! Nove meses e alguns dias..
Abriu a porta e teve a certeza que aquele dia acordara diferente. Era o dia..!
O gato olhou-a sorrindo, remando com os olhos, e nove meses e alguns dias depois, ao abrir da porta, miando ao escurecer do esconder da lua e ao amanhecer do acordar do sol, saiu correndo, levando com ele os dois e remando..remando em direcção à lua. À lua...
Chegara a hora! Regou pela última vez as flores, encostou à parede caiada a cadeira com cuidado e saltou para a moldura. Aconchegou o casaquinho bordado e carinhosamente como um dia fizera, endireitou-lhe a gravata e ajeitou-lhe no braço o livrinho da primeira comunhão ….
Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009
XVII- ELA, ELE E O GATO...(II)
Cinquenta e três anos e três semanas depois de ter casado ainda não se considerava viúva. Nesse dia acordara cedo, muito cedo. Uma pontada nas costas e aquela irritante tosse fizera-a acordar. Espreitou por uma fresta da janela, e clareando o escuro, a redonda e cheia lua desenhava-se ao longe transpondo o horizonte.
Vestiu-se calmamente. O simples vestido cinzento de andar por casa, e deixou-se ficar em pantufas. Na casa de banho pareceu-lhe que a torneira já não pingava e num canto uma ligeira mancha pareceu-lhe bolor. O raio do bolor. Difícil de limpar …Impregnava tudo, as paredes, a roupa, quase que a alma!
Na sala a lareira ainda quente aquecia o frio que se tinha agarrado às paredes durante mais de cinquenta anos. Um resto de sopa ainda morna e com bom aspecto iria resolver-lhe o problema do almoço. Nas mesmas paredes as mesmas fotografias: O marido de fato e gravata (novo, bonito como o filho, sem bolor na alma) junto dela, (um casaquinho branco com umas flores bordadas) felizes ainda. O filho (bonito como o pai) com uma gravatinha e o livrinho de orações debaixo do braço no dia da primeira comunhão! O barco lindo (até breve) com o filho pequeno e lindo também junto dele,(Para ela ele fora sempre pequeno)
o gato! ao fundo a lua redonda, como que a esconder-se no horizonte da fotografia..
Na cozinha preparou o café. Continuava a chamar-lhe café apesar de ser leite e só um bochechinho de café.. hábitos antigos!!… Regou as flores e verificou que ainda estavam viçosas e cheiravam bem.
Foi então que começou o vento. Primeiro devagar, muito devagar, depois forte, forte, frio e quente ao mesmo tempo, estranho. Foi espreitar a rua, abriu ligeiramente a porta e nem sinal de vento. Fechou-a e quando se voltou, ele estava lá a olhá-la fixamente, suavemente, os olhos muito vivos e abertos.
Chamou-o carinhosamente como sempre fazia. Saltou-lhe para o colo feliz, olhando-a nos olhos, e foi então que ela teve a certeza: Nos seus olhos viu os dois, remavam, remavam, em direcção à lua.
Foi ao quarto e mudou de roupa. Vestiu o vestido preto e soube que cinquenta e três anos e três semanas depois tinha ficado viúva.
Continua no próximo texto.
Vestiu-se calmamente. O simples vestido cinzento de andar por casa, e deixou-se ficar em pantufas. Na casa de banho pareceu-lhe que a torneira já não pingava e num canto uma ligeira mancha pareceu-lhe bolor. O raio do bolor. Difícil de limpar …Impregnava tudo, as paredes, a roupa, quase que a alma!
Na sala a lareira ainda quente aquecia o frio que se tinha agarrado às paredes durante mais de cinquenta anos. Um resto de sopa ainda morna e com bom aspecto iria resolver-lhe o problema do almoço. Nas mesmas paredes as mesmas fotografias: O marido de fato e gravata (novo, bonito como o filho, sem bolor na alma) junto dela, (um casaquinho branco com umas flores bordadas) felizes ainda. O filho (bonito como o pai) com uma gravatinha e o livrinho de orações debaixo do braço no dia da primeira comunhão! O barco lindo (até breve) com o filho pequeno e lindo também junto dele,(Para ela ele fora sempre pequeno)
o gato! ao fundo a lua redonda, como que a esconder-se no horizonte da fotografia..
Na cozinha preparou o café. Continuava a chamar-lhe café apesar de ser leite e só um bochechinho de café.. hábitos antigos!!… Regou as flores e verificou que ainda estavam viçosas e cheiravam bem.
Foi então que começou o vento. Primeiro devagar, muito devagar, depois forte, forte, frio e quente ao mesmo tempo, estranho. Foi espreitar a rua, abriu ligeiramente a porta e nem sinal de vento. Fechou-a e quando se voltou, ele estava lá a olhá-la fixamente, suavemente, os olhos muito vivos e abertos.
Chamou-o carinhosamente como sempre fazia. Saltou-lhe para o colo feliz, olhando-a nos olhos, e foi então que ela teve a certeza: Nos seus olhos viu os dois, remavam, remavam, em direcção à lua.
Foi ao quarto e mudou de roupa. Vestiu o vestido preto e soube que cinquenta e três anos e três semanas depois tinha ficado viúva.
Continua no próximo texto.
Sábado, 10 de Janeiro de 2009
XVI-ELA, O GATO…(I)
No dia em que ia fazer cinquenta e três anos de casado, acordou, olhou a redonda lua e levantou-se ainda bastante cedo com o cheiro e o ruído do mar no coração.
Sorriu ao estremunhado gato, e mesmo por cima do pijama vestiu aquelas calças cinzentas que já tinha vestido ontem e anteontem. Enfiou aquele casaco castanho que no Natal lhe tinham oferecido. Ao lado um respirar suave e uma tosse envelhecida e rouca diziam-lhe que ela ainda dormia e que a constipação ou uma ligeira pneumonia continuava a morar ali.
O gato já mais acordado e felino roçou-lhe nas pernas. Sorriu olhando para dentro de si próprio e vendo a tristeza que a vida tinha deixado lá dentro. Uma torneira pingava ligeiramente, bolor num canto da casa-de-banho, velhas molduras com antigas gerações, a fotografia do filho encostado ao barco… com o gato! Ao fundo a redonda lua. Parecido com este o raio do gato! (os gatos pareciam-lhe todos iguais!) Lindo o barco! Pintado de riscas vermelhas com o nome benzido pelo padre e tudo: ATÉ BREVE (SE DEUS QUISER)
Na sala, na lareira, uma panela com um resto de sopa, sem fogo, sem chama pôs-lhe mais bolor na alma. Mais fotos, ele quando era novo, (agora acha que nunca foi novo) o filho bonito, parecido com a mãe, novo, ainda sem bolor na alma..O gato a querer aquecer a lareira.. convidando-o, chamando-o, torturando-o, envelhecendo-o.
Anos atrás acordara também com a redonda lua por cima dele e envelhecera de repente. Nesse dia, logo cedo, em que vira o filho vestir aquelas calças cinzentas e aquele casaco que a mãe lhe oferecera pelo Natal. (Nunca mais houve Natal) e que lhe respondera:
-Vou ver a Lua!
e chamando o gato, entrara no barco e remara, remara, remara…..em direcção à lua!
No dia em que ia fazer cinquenta e três anos de casada levantou-se tarde.. O frio, o reumático, o ter o tempo todo para não fazer nada..!
Na cozinha em cima da mesa flores e um bilhete: Até Breve….!
O gato também não estava lá!
(Continua no próximo texto)
Sorriu ao estremunhado gato, e mesmo por cima do pijama vestiu aquelas calças cinzentas que já tinha vestido ontem e anteontem. Enfiou aquele casaco castanho que no Natal lhe tinham oferecido. Ao lado um respirar suave e uma tosse envelhecida e rouca diziam-lhe que ela ainda dormia e que a constipação ou uma ligeira pneumonia continuava a morar ali.
O gato já mais acordado e felino roçou-lhe nas pernas. Sorriu olhando para dentro de si próprio e vendo a tristeza que a vida tinha deixado lá dentro. Uma torneira pingava ligeiramente, bolor num canto da casa-de-banho, velhas molduras com antigas gerações, a fotografia do filho encostado ao barco… com o gato! Ao fundo a redonda lua. Parecido com este o raio do gato! (os gatos pareciam-lhe todos iguais!) Lindo o barco! Pintado de riscas vermelhas com o nome benzido pelo padre e tudo: ATÉ BREVE (SE DEUS QUISER)
Na sala, na lareira, uma panela com um resto de sopa, sem fogo, sem chama pôs-lhe mais bolor na alma. Mais fotos, ele quando era novo, (agora acha que nunca foi novo) o filho bonito, parecido com a mãe, novo, ainda sem bolor na alma..O gato a querer aquecer a lareira.. convidando-o, chamando-o, torturando-o, envelhecendo-o.
Anos atrás acordara também com a redonda lua por cima dele e envelhecera de repente. Nesse dia, logo cedo, em que vira o filho vestir aquelas calças cinzentas e aquele casaco que a mãe lhe oferecera pelo Natal. (Nunca mais houve Natal) e que lhe respondera:
-Vou ver a Lua!
e chamando o gato, entrara no barco e remara, remara, remara…..em direcção à lua!
No dia em que ia fazer cinquenta e três anos de casada levantou-se tarde.. O frio, o reumático, o ter o tempo todo para não fazer nada..!
Na cozinha em cima da mesa flores e um bilhete: Até Breve….!
O gato também não estava lá!
(Continua no próximo texto)
Domingo, 14 de Dezembro de 2008
XV- PAI NATAL
Confesso que o figurão nunca me foi simpático. Talvez por me ter sido impingido nos últimos tempos, talvez por não ter pertencido aos meus amigos de infância. Ultimamente cada vez menos simpático o acho.
Agora até tem horário de trabalho e descansa à quarta-feira...
Há dias encontrei um! Fumava e bebia cerveja desalmadamente, meio escondido e sentado num daqueles bancos de pé alto. De lá, por detrás daquele esconderijo natural, envolto numa nuvem azulada de fumo e acalorado com uma desconfortável e amarelecida barba cor de açúcar amarelo, espreitava o resto do líquido no fundo do copo. De repente pareceu despertar quando a empregada do bar se aproximou, e do alto do seu posto, espreitou sem nenhum pudor natalício o bem nutrido peito da rapariga, desenhado na rijeza da fina blusa: Merda…. ! Dá-me outra que tenho de ir trabalhar…
Bebeu, fumou, foi mijar e saiu pois tinha de ir trabalhar.
Cinco minutos depois passei ao pé dele. Piscou-me o olho enquanto fazia mais um OH!OH!OH!..
Subi e fui beber uma cerveja. A rapariga já não estava lá..
PARA TODOS FICAM OS MEUS VOTOS DE UM SANTO E FELIZ NATAL.
VOLTAREI EM 2009
SE DEUS QUISER
Agora até tem horário de trabalho e descansa à quarta-feira...
Há dias encontrei um! Fumava e bebia cerveja desalmadamente, meio escondido e sentado num daqueles bancos de pé alto. De lá, por detrás daquele esconderijo natural, envolto numa nuvem azulada de fumo e acalorado com uma desconfortável e amarelecida barba cor de açúcar amarelo, espreitava o resto do líquido no fundo do copo. De repente pareceu despertar quando a empregada do bar se aproximou, e do alto do seu posto, espreitou sem nenhum pudor natalício o bem nutrido peito da rapariga, desenhado na rijeza da fina blusa: Merda…. ! Dá-me outra que tenho de ir trabalhar…
Bebeu, fumou, foi mijar e saiu pois tinha de ir trabalhar.
Cinco minutos depois passei ao pé dele. Piscou-me o olho enquanto fazia mais um OH!OH!OH!..
Subi e fui beber uma cerveja. A rapariga já não estava lá..
PARA TODOS FICAM OS MEUS VOTOS DE UM SANTO E FELIZ NATAL.
VOLTAREI EM 2009
SE DEUS QUISER
Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008
XIV-PARABÉNS CINARA
PARABÉNS FILHA
No dia em que ias nascer um poderoso raio de sol passou por uma faixa entreaberta na persiana da janela e aterrou formando uma perfeita auréola circular na cama onde tinhas sido feita.
Catorze anos mais tarde vejo-te entrar pela porta da escola de cabelo ondulando ao vento, corpo esguio de criança quase adulta, sorrindo, saltando brincando...As colegas esperam-te… O toque soa e desapareces por uma porta que te há-de levar a uma aula de qualquer coisa....
Levantei-me cedo e fui preparar as coisas cuidadosamente. Ias nascer nesse dia. Saí, passei pelo quiosque e para espanto da empregada mandei embrulhar cuidadosamente o jornal do dia. Continua guardado e embrulhado com as notícias intactas para te oferecer quando chegar a altura prevista. Tens de saber como era o mundo no dia em que ias nascer...
Ainda tinha tempo, ias nascer nesse dia mas ainda faltavam umas horas como previsto...De seguida passei pela igreja, entrei e fui escolher o banco em que te irias sentar catorze anos mais tarde...Do lado esquerdo resguardado e com vista lateral para o padre Américo... Examinei a pia baptismal e provei a água que ela continha... Estava salgada e teria de ser substituída quando daqui a um mês exacto fosse o teu baptizo. Na escola apreciei as árvores por onde irias passar, os professores indispostos, os funcionários zelosos e autoritários que te esperavam, as velhas balizas desbotadas e o cesto roto de basquete que tanto te iria atrair. Na biblioteca preenchi logo a tua ficha de inscrição e reservei alguns livros que catorze anos mais tarde irias ler.
Tinha tudo pronto, estava quase na hora.
Estava lá quando chegas-te. Pequeno pedaço de carne estrebuchando pela vida, pequenos bracitos e pernas ansiosos por crescer, pequeno cérebro esperando por estímulo, pequeno mundo chegado ao mundo. Entretanto o tempo passa...
Espero por ti...ainda tenho tempo…
Hoje o sol está escondido desde manhã, escuro, envergonhado..... Nunca mais neste dia um sol radioso passou por uma faixa entreaberta na persiana da janela. Fazes hoje catorze anos.....
Espero por ti....ainda tenho tempo…
Já passei pelo quiosque e comprei o jornal do dia (não mandei embrulhar) entrei na igreja e fui espreitar o banco do lado esquerdo, resguardado de onde se vê o padre Gonçalves ( Já não é o padre Américo) a água da pia baptismal continua salobra sem sabor precisando de ser mudada..
Espero por ti. Fazes hoje catorze anos.
Na escola as árvores continuam viçosas as balizas foram pintadas recentemente e o cesto de basquete é novinho em folha e os professores continuam com a mesma cara aborrecida e os funcionários mais autoritários ainda... Na biblioteca vejo os mesmos livros, poucos mais....parece que não se usa ler.
Espero por ti. Toca a campainha e vejo-te vir por uma porta que te traz de uma aula de uma coisa qualquer.
Fazes hoje catorze anos….
Parabéns filha
PARABÉNS CINARA
Dado que de momento não tenho disponibilidade para vos visitar e comentar como desejaria, o presente texto não vai ficar aberto a comentários. Agradeço as vossas visitas e continuo a visitar-vos em silêncio.
A todos o meu muito obrigado.
Vitor
No dia em que ias nascer um poderoso raio de sol passou por uma faixa entreaberta na persiana da janela e aterrou formando uma perfeita auréola circular na cama onde tinhas sido feita.
Catorze anos mais tarde vejo-te entrar pela porta da escola de cabelo ondulando ao vento, corpo esguio de criança quase adulta, sorrindo, saltando brincando...As colegas esperam-te… O toque soa e desapareces por uma porta que te há-de levar a uma aula de qualquer coisa....
Levantei-me cedo e fui preparar as coisas cuidadosamente. Ias nascer nesse dia. Saí, passei pelo quiosque e para espanto da empregada mandei embrulhar cuidadosamente o jornal do dia. Continua guardado e embrulhado com as notícias intactas para te oferecer quando chegar a altura prevista. Tens de saber como era o mundo no dia em que ias nascer...
Ainda tinha tempo, ias nascer nesse dia mas ainda faltavam umas horas como previsto...De seguida passei pela igreja, entrei e fui escolher o banco em que te irias sentar catorze anos mais tarde...Do lado esquerdo resguardado e com vista lateral para o padre Américo... Examinei a pia baptismal e provei a água que ela continha... Estava salgada e teria de ser substituída quando daqui a um mês exacto fosse o teu baptizo. Na escola apreciei as árvores por onde irias passar, os professores indispostos, os funcionários zelosos e autoritários que te esperavam, as velhas balizas desbotadas e o cesto roto de basquete que tanto te iria atrair. Na biblioteca preenchi logo a tua ficha de inscrição e reservei alguns livros que catorze anos mais tarde irias ler.
Tinha tudo pronto, estava quase na hora.
Estava lá quando chegas-te. Pequeno pedaço de carne estrebuchando pela vida, pequenos bracitos e pernas ansiosos por crescer, pequeno cérebro esperando por estímulo, pequeno mundo chegado ao mundo. Entretanto o tempo passa...
Espero por ti...ainda tenho tempo…
Hoje o sol está escondido desde manhã, escuro, envergonhado..... Nunca mais neste dia um sol radioso passou por uma faixa entreaberta na persiana da janela. Fazes hoje catorze anos.....
Espero por ti....ainda tenho tempo…
Já passei pelo quiosque e comprei o jornal do dia (não mandei embrulhar) entrei na igreja e fui espreitar o banco do lado esquerdo, resguardado de onde se vê o padre Gonçalves ( Já não é o padre Américo) a água da pia baptismal continua salobra sem sabor precisando de ser mudada..
Espero por ti. Fazes hoje catorze anos.
Na escola as árvores continuam viçosas as balizas foram pintadas recentemente e o cesto de basquete é novinho em folha e os professores continuam com a mesma cara aborrecida e os funcionários mais autoritários ainda... Na biblioteca vejo os mesmos livros, poucos mais....parece que não se usa ler.
Espero por ti. Toca a campainha e vejo-te vir por uma porta que te traz de uma aula de uma coisa qualquer.
Fazes hoje catorze anos….
Parabéns filha
PARABÉNS CINARA
Dado que de momento não tenho disponibilidade para vos visitar e comentar como desejaria, o presente texto não vai ficar aberto a comentários. Agradeço as vossas visitas e continuo a visitar-vos em silêncio.
A todos o meu muito obrigado.
Vitor
Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
XIII -A SEGUNDA MORTE
Ia morrer pela segunda vez e o facto assustava-o mais do que da primeira. Na primeira tinha tido uma morte suave, boa e calma, quase que a saboreara com gosto. Despedira-se de todos e partira sem qualquer remorso de cá ter estado. Desta vez era diferente. Tudo lhe parecia novo e difícil de encarar. Não que não tivesse gostado de ter morrido, mas uma certa nostalgia já o estava invadindo. Tinha morrido num dia bonito, de sol alegre e calor abundante, num dia de maré-cheia. Lembrava-se ainda bem como suara apertado naquele horrível colarinho.
Quando chegara lá encarara as coisas com naturalidade…Encontrou amigos, conhecidos, pessoas que não via há muito tempo e pessoas que francamente esperava nunca mais ver e que afinal lá estavam também. Passou os primeiros dias um bocado aborrecido, sem nada para fazer, sem conseguir conversar com ninguém, sem fome, sem sede, sem calor...sem nada. Era como se estivesse vivo, mas um vivo muito doente, quase um vivo morto, francamente que estava achando que para estar morto daquela maneira quase seria preferível continuar vivo.
Agora que ia morrer novamente estava assustado. Não sabia como seria novamente recebido, se o mesmo tédio o assaltaria se encarariam bem o seu regresso se não o considerariam um traidor às leis da vida. Não sabia bem quando seria a partida, mas iria preparar bem as coisas. Passaria pelo cemitério e iria arejar o local onde supostamente deveria estar. Tiraria aquela jarra azul que não lhe dizia nada. Arrumaria devidamente as rosas vermelhas que o vento costumava espalhar, daria uma limpeza geral. Endireitaria as fotografias, iria retirar algumas que o favoreciam menos. Deixaria ficar somente algumas e colocaria em primeiro plano aquela em que na companhia do filho, na areia da praia, cavalgavam garbosamente os seus dois cavalos amarelos. Tantas recordações de quando era vivo..! E agora ali prestes a estar morto de novo. Inconformado resolveu caminhar um pouco, sentia-se sonolento, amodorrado. O ar fresco do entardecer e o cheiro da maré vazia carregada de saudade fizeram-lhe bem, irrigaram-lhe o cérebro, os músculos atrofiados distenderam-se. Sorriu, sentou-se e esperou por eles, sabia que viriam em breve.
De repente ouviu-os aproximarem-se, sentiu-lhes a respiração o cheiro, amarelos, galopando quase sem tocar na areia, levantado uma brisa amarela. Viu-se montado num deles e o filho noutro. Passaram por ele e acenaram-lhe sorrindo. Tentou gritar-lhes mas a voz não saía. Soube então que estava morto que continuava morto e bem morto, porém os cavalos ao fundo galopando diziam-lhe que não, que era mentira que continuava vivo bem vivo…Deu uma palmada no cavalo, acelerou o galope voltou-se para trás e despediu-se de si próprio enquanto se elevava nos ares.
Nunca mais se veriam…
Quando chegara lá encarara as coisas com naturalidade…Encontrou amigos, conhecidos, pessoas que não via há muito tempo e pessoas que francamente esperava nunca mais ver e que afinal lá estavam também. Passou os primeiros dias um bocado aborrecido, sem nada para fazer, sem conseguir conversar com ninguém, sem fome, sem sede, sem calor...sem nada. Era como se estivesse vivo, mas um vivo muito doente, quase um vivo morto, francamente que estava achando que para estar morto daquela maneira quase seria preferível continuar vivo.
Agora que ia morrer novamente estava assustado. Não sabia como seria novamente recebido, se o mesmo tédio o assaltaria se encarariam bem o seu regresso se não o considerariam um traidor às leis da vida. Não sabia bem quando seria a partida, mas iria preparar bem as coisas. Passaria pelo cemitério e iria arejar o local onde supostamente deveria estar. Tiraria aquela jarra azul que não lhe dizia nada. Arrumaria devidamente as rosas vermelhas que o vento costumava espalhar, daria uma limpeza geral. Endireitaria as fotografias, iria retirar algumas que o favoreciam menos. Deixaria ficar somente algumas e colocaria em primeiro plano aquela em que na companhia do filho, na areia da praia, cavalgavam garbosamente os seus dois cavalos amarelos. Tantas recordações de quando era vivo..! E agora ali prestes a estar morto de novo. Inconformado resolveu caminhar um pouco, sentia-se sonolento, amodorrado. O ar fresco do entardecer e o cheiro da maré vazia carregada de saudade fizeram-lhe bem, irrigaram-lhe o cérebro, os músculos atrofiados distenderam-se. Sorriu, sentou-se e esperou por eles, sabia que viriam em breve.
De repente ouviu-os aproximarem-se, sentiu-lhes a respiração o cheiro, amarelos, galopando quase sem tocar na areia, levantado uma brisa amarela. Viu-se montado num deles e o filho noutro. Passaram por ele e acenaram-lhe sorrindo. Tentou gritar-lhes mas a voz não saía. Soube então que estava morto que continuava morto e bem morto, porém os cavalos ao fundo galopando diziam-lhe que não, que era mentira que continuava vivo bem vivo…Deu uma palmada no cavalo, acelerou o galope voltou-se para trás e despediu-se de si próprio enquanto se elevava nos ares.
Nunca mais se veriam…
Sexta-feira, 29 de Agosto de 2008
Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
XII- CHUVA QUENTE
A igreja estava apinhada de gente que derramava suor em fio, naquele dia de Julho em que o casamento se iria efectuar. Logo pela manhã um cheiro acre, mórbido de cinza queimada, deixara no ar a sensação do que iria acontecer e que iria mudar a vida da aldeia para sempre. Ao acordar, suado e pegajoso, recordou-se de imediato que tinha chegado esse dia anunciado desde há muito. Ia casar e conforme sempre soubera, esse dia iria ficar para sempre marcado na história da terra e de toda a gente que iria assistir ao triste e trágico acontecimento.
Desde sempre sabia que aquele dia iria novamente chegar. Tinha-o esperado e tinha-o receado, tinham-lho descrito, tinha-o vivido já outrora.
O sol acordou-o completamente e, logo de manhã, tornou-se tão abrasador que tudo à sua volta parecia estar a suar e a derreter. Nunca um dia de Julho acordara tão quente.
Agora que estava na igreja e que a cerimónia iria começar mais a sensação de desconforto e mistério se adensava à sua volta, tudo iria recomeçar em breve.
Para cima de quarenta e tantos graus afogavam os muitos convidados que tinham aceite estar presentes. Moviam-se inquietos e falavam com bafos de suor a escorrerem pelos engomados colarinhos.
O primeiro trovão surgiu exactamente quando o Padre, de negro vestido, saía da sacristia. Enorme, e negro o padre, acordara há breves momentos.
Negro e grande, o trovão, ribombando enorme, rolou por cima da igreja abrindo sulcos na parede testemhunha de séculos e séculos de mistérios.
Todos estremeceram e olharam para o padre que se preparava para começar a cerimónia, quando outro medonho trovão arrancou a grande e pesada porta da igreja e trouxe os primeiros pingos de chuva. Grossos, enormes, brancos como dedos de menino, precipitaram-se em tremendo aguaceiro sobre a terra que parecia ferver. O barulho ensurdecedor depressa abafou todas as vozes e as primeiras preces começaram a desenhar-se nas caras angustiadas. Pela porta derrubada da igreja podia ver-se o exterior, onde um escuro aterrador fazia lembrar um imenso inferno. Em breve começaram a passar as primeiras árvores arrancadas pela fúria da chuva. Enormes, seguiam na corrente arrastando consigo tudo. Um par de porcos, dois burros, alguns cães, galinhas, patos e coelhos não se conseguiram também segurar e seguiam na castanha e barrenta fúria da água que agora já era um autêntico ribeiro e ia engrossando de minuto a minuto.
Duas horas passadas continuava a chover cada vez com mais intensidade. Dentro da igreja o calor mantinha-se insuportável e o padre refugiara-se na sacristia onde os primeiros ratos lhe começaram a subir pelas botas acima. Adormecera e iria dormir durante os próximos quatro dias.
Durante toda a noite o céu continuou a despejar vento e chuva como nunca se tinha visto. O calor intenso continuava dentro da igreja de onde ninguém conseguia sair. Inacreditavelmente nem uma lâmpada nem um fósforo nem um bafo de luz se vislumbrava em nenhum dos presentes e mais estranhamente ainda, ninguém via nem sentia o seu vizinho por mais que apurasse a vista e o ouvido ou que com a mão tentasse encontrá-lo. Todos se tinham enterrado e refugiado dentro de si próprios. Parecia que um silêncio sepulcral tinha enterrado vivos todos os presentes na cerimónia.
De repente começaram a senti-los! Primeiro um pequeno chiar, depois um ruído imenso que saía das velhas paredes e abafava o forte aguaceiro que sem dó nem piedade tudo estava a destruir. Começaram a senti-los nas pernas, nas roupas, nas calças, na cara, na boca e nos cabelos, chiando, pegajosos e impiedosos. Tentavam sacudi-los mas a sua viscosidade e cheiro nauseabundo entrava-lhes pelas narinas e tolhia-lhes os gestos. Tentavam pisá-los mas agarravam-se aos sapatos e em breve todo o chão da igreja era uma enorme carnificina onde por cada um que conseguiam matar cinco ou seis surgiam mais fortes olhando-os no escuro. Não se via vivalma só os guinchos e o ruído das suas loucas corridas. Tentavam gritar mas não conseguiam pois as suas bocas estavam tapadas, cheias deles, os braços queriam esbracejar mas não tinham força para isso e as suas pernas pareciam anestesiadas com aquele bafo pérfido.
Na sacristia o padre continuava a dormir e as suas roupas já tinham desaparecido devoradas pelo apetite voraz de milhares de ratos. O branco nu da sua carne alvejava na negrura da noite de terror que se vivia. Indiferente dormia suando e ressonando ritmadamente.
Durante mais três dias continuou a chover como nunca ninguém imaginara que pudesse nalgum lugar da terra suceder daquela forma, até que de repente um imenso relâmpago deu luz à tarde e tudo se iluminou de novo. No adro da igreja instantaneamente milhares de flores tinham florescido como por milagre e dentro da igreja pequenos montinhos de cinza fumegavam junto dos bancos onde outrora os convidados teriam estado. Perto do altar um resto de tecido branco, com uma cruz bordada em fundo, indicava que uma noiva teria passado por ali outrora e num banco um pequeno livro de missa, de capa negra e com um pequeno crucifixo desenhado, sobrara da fúria que se abatera sobre tudo.
Foi nessa altura que o padre acordou do seu estranho sono. Viu-se nu e achou estranho tal facto mas não demasiado pois o calor era tal que pensou ter-se despido sem saber. Num canto viu um fio de água e um pequeno rato fugindo por um buraco na madeira. Pareceu-lhe anormal tal facto. Ratos eram coisa que não costumava haver na sua igreja. No adro da igreja milhares de flores brancas despertaram-lhe a curiosidade e na igreja um ligeiro odor a cinza e um negro gato esquelético de olhos endemoninhados em cima do altar fizeram-no parar e pensar… Afinal sempre tinha ratos na igreja, o gato provava-o. De repente lembrou-se que tinha um casamento para fazer mas nem noivos nem convidados lhe apareciam. Voltou-se para o altar e o gato lá continuava. A olhá-lo de pelo eriçado, mas com uns olhos humanos e os uns dentes ferozes, duas perfeitas fileiras completas. Um gato com um rosto humano só que continuava a ser um gato dentro do qual o noivo se escondera dos ratos.
Nu, pegou no crucifixo onde um Cristo de madeira parecia sangrar e apontou-o para o gato, suando em bica, exactamente no momento em que o sino tocava as doze badaladas. Só nesse momento o gato se começou a transformar. Ao correr pela igreja, perseguido pelo nu do padre e pelo crucifixo, ia aumentando de tamanho e derrubando tudo à sua saída. Quando chegou à porta o seu tamanho era o de um cão e na rua tomou uma estranha forma meio humana meio bicho desconhecido que conforme corria ia berrando, ladrando e pisando as flores que à sua passagem secavam e murchavam.
Desapareceu por completo e todas as flores tinham secado, murchado, desaparecido à sua passagem restando pequenos montículos de cinza fumegante onde antes elas tinham florescido sem aviso prévio.
Satisfeito o padre regressou à igreja e preparou-se para o que iria suceder a seguir. Em breve tudo iria recomeçar: O mesmo casamento, o mesmo noivo e o mesmo gato iriam fundir-se num só. A mesma chuva viria e os ratos iriam gritar e chiar ainda mais, por isso iria dormir. Resignado preparou-se para que o seu corpo, grande, branco, retomar novamente a forma inicial. Sem dar por isso foi-se escondendo dentro de si próprio e em breve era menino outra vez. Dormiu… Quando eles chegassem iriam acorda-lo e tudo se repetiria…
Diabo de vida!
Desde sempre sabia que aquele dia iria novamente chegar. Tinha-o esperado e tinha-o receado, tinham-lho descrito, tinha-o vivido já outrora.
O sol acordou-o completamente e, logo de manhã, tornou-se tão abrasador que tudo à sua volta parecia estar a suar e a derreter. Nunca um dia de Julho acordara tão quente.
Agora que estava na igreja e que a cerimónia iria começar mais a sensação de desconforto e mistério se adensava à sua volta, tudo iria recomeçar em breve.
Para cima de quarenta e tantos graus afogavam os muitos convidados que tinham aceite estar presentes. Moviam-se inquietos e falavam com bafos de suor a escorrerem pelos engomados colarinhos.
O primeiro trovão surgiu exactamente quando o Padre, de negro vestido, saía da sacristia. Enorme, e negro o padre, acordara há breves momentos.
Negro e grande, o trovão, ribombando enorme, rolou por cima da igreja abrindo sulcos na parede testemhunha de séculos e séculos de mistérios.
Todos estremeceram e olharam para o padre que se preparava para começar a cerimónia, quando outro medonho trovão arrancou a grande e pesada porta da igreja e trouxe os primeiros pingos de chuva. Grossos, enormes, brancos como dedos de menino, precipitaram-se em tremendo aguaceiro sobre a terra que parecia ferver. O barulho ensurdecedor depressa abafou todas as vozes e as primeiras preces começaram a desenhar-se nas caras angustiadas. Pela porta derrubada da igreja podia ver-se o exterior, onde um escuro aterrador fazia lembrar um imenso inferno. Em breve começaram a passar as primeiras árvores arrancadas pela fúria da chuva. Enormes, seguiam na corrente arrastando consigo tudo. Um par de porcos, dois burros, alguns cães, galinhas, patos e coelhos não se conseguiram também segurar e seguiam na castanha e barrenta fúria da água que agora já era um autêntico ribeiro e ia engrossando de minuto a minuto.
Duas horas passadas continuava a chover cada vez com mais intensidade. Dentro da igreja o calor mantinha-se insuportável e o padre refugiara-se na sacristia onde os primeiros ratos lhe começaram a subir pelas botas acima. Adormecera e iria dormir durante os próximos quatro dias.
Durante toda a noite o céu continuou a despejar vento e chuva como nunca se tinha visto. O calor intenso continuava dentro da igreja de onde ninguém conseguia sair. Inacreditavelmente nem uma lâmpada nem um fósforo nem um bafo de luz se vislumbrava em nenhum dos presentes e mais estranhamente ainda, ninguém via nem sentia o seu vizinho por mais que apurasse a vista e o ouvido ou que com a mão tentasse encontrá-lo. Todos se tinham enterrado e refugiado dentro de si próprios. Parecia que um silêncio sepulcral tinha enterrado vivos todos os presentes na cerimónia.
De repente começaram a senti-los! Primeiro um pequeno chiar, depois um ruído imenso que saía das velhas paredes e abafava o forte aguaceiro que sem dó nem piedade tudo estava a destruir. Começaram a senti-los nas pernas, nas roupas, nas calças, na cara, na boca e nos cabelos, chiando, pegajosos e impiedosos. Tentavam sacudi-los mas a sua viscosidade e cheiro nauseabundo entrava-lhes pelas narinas e tolhia-lhes os gestos. Tentavam pisá-los mas agarravam-se aos sapatos e em breve todo o chão da igreja era uma enorme carnificina onde por cada um que conseguiam matar cinco ou seis surgiam mais fortes olhando-os no escuro. Não se via vivalma só os guinchos e o ruído das suas loucas corridas. Tentavam gritar mas não conseguiam pois as suas bocas estavam tapadas, cheias deles, os braços queriam esbracejar mas não tinham força para isso e as suas pernas pareciam anestesiadas com aquele bafo pérfido.
Na sacristia o padre continuava a dormir e as suas roupas já tinham desaparecido devoradas pelo apetite voraz de milhares de ratos. O branco nu da sua carne alvejava na negrura da noite de terror que se vivia. Indiferente dormia suando e ressonando ritmadamente.
Durante mais três dias continuou a chover como nunca ninguém imaginara que pudesse nalgum lugar da terra suceder daquela forma, até que de repente um imenso relâmpago deu luz à tarde e tudo se iluminou de novo. No adro da igreja instantaneamente milhares de flores tinham florescido como por milagre e dentro da igreja pequenos montinhos de cinza fumegavam junto dos bancos onde outrora os convidados teriam estado. Perto do altar um resto de tecido branco, com uma cruz bordada em fundo, indicava que uma noiva teria passado por ali outrora e num banco um pequeno livro de missa, de capa negra e com um pequeno crucifixo desenhado, sobrara da fúria que se abatera sobre tudo.
Foi nessa altura que o padre acordou do seu estranho sono. Viu-se nu e achou estranho tal facto mas não demasiado pois o calor era tal que pensou ter-se despido sem saber. Num canto viu um fio de água e um pequeno rato fugindo por um buraco na madeira. Pareceu-lhe anormal tal facto. Ratos eram coisa que não costumava haver na sua igreja. No adro da igreja milhares de flores brancas despertaram-lhe a curiosidade e na igreja um ligeiro odor a cinza e um negro gato esquelético de olhos endemoninhados em cima do altar fizeram-no parar e pensar… Afinal sempre tinha ratos na igreja, o gato provava-o. De repente lembrou-se que tinha um casamento para fazer mas nem noivos nem convidados lhe apareciam. Voltou-se para o altar e o gato lá continuava. A olhá-lo de pelo eriçado, mas com uns olhos humanos e os uns dentes ferozes, duas perfeitas fileiras completas. Um gato com um rosto humano só que continuava a ser um gato dentro do qual o noivo se escondera dos ratos.
Nu, pegou no crucifixo onde um Cristo de madeira parecia sangrar e apontou-o para o gato, suando em bica, exactamente no momento em que o sino tocava as doze badaladas. Só nesse momento o gato se começou a transformar. Ao correr pela igreja, perseguido pelo nu do padre e pelo crucifixo, ia aumentando de tamanho e derrubando tudo à sua saída. Quando chegou à porta o seu tamanho era o de um cão e na rua tomou uma estranha forma meio humana meio bicho desconhecido que conforme corria ia berrando, ladrando e pisando as flores que à sua passagem secavam e murchavam.
Desapareceu por completo e todas as flores tinham secado, murchado, desaparecido à sua passagem restando pequenos montículos de cinza fumegante onde antes elas tinham florescido sem aviso prévio.
Satisfeito o padre regressou à igreja e preparou-se para o que iria suceder a seguir. Em breve tudo iria recomeçar: O mesmo casamento, o mesmo noivo e o mesmo gato iriam fundir-se num só. A mesma chuva viria e os ratos iriam gritar e chiar ainda mais, por isso iria dormir. Resignado preparou-se para que o seu corpo, grande, branco, retomar novamente a forma inicial. Sem dar por isso foi-se escondendo dentro de si próprio e em breve era menino outra vez. Dormiu… Quando eles chegassem iriam acorda-lo e tudo se repetiria…
Diabo de vida!
Vitor Barros
Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
Obrigado, Obrigado...

A todos os que adquiriram o meu livro deixo o meu sincero obrigado. Espero que tenham gostado do mesmo.
Já tive oportunidade de receber alguns comentários sobre o mesmo. Todos gostaram do que leram e todos me deram uma opinião muito sentida sobre a maioria dos textos. Todos mesmo, todos sem excepção.
Ontem recebi pessoalmente o texto que abaixo transcrevo. Cheio de emoção e de afecto.
Fiquei feliz, ficámos felizes. Ficámos comovidos.
O que escreveste são pétalas que o teu coração perfumou.
Obrigado Epifania!
Já tive oportunidade de receber alguns comentários sobre o mesmo. Todos gostaram do que leram e todos me deram uma opinião muito sentida sobre a maioria dos textos. Todos mesmo, todos sem excepção.
Ontem recebi pessoalmente o texto que abaixo transcrevo. Cheio de emoção e de afecto.
Fiquei feliz, ficámos felizes. Ficámos comovidos.
O que escreveste são pétalas que o teu coração perfumou.
Obrigado Epifania!
Pequena análise do teu livro”
“Vitor, foi com alegria misturada com tristeza, saudade e umas lágrimas a quererem sempre saltar dos olhos que iniciei a leitura do teu livro.
Já o título me comove. As palavras do Presidente, o prefácio da Isabel Maria também.
Quero absorver todas as palavras e ir até onde a sua magnífica imaginação e seu coração bondoso e humilde me levarem.
Como mãe da Dina não posso deixar de agradecer-lhe o nome dela neste livro, apesar de nunca a ter conhecido (julgo que não?) Olho à capa e numa rosa vejo logo o rosto dela.
Como é sentimental! E como me identifico em algumas coisas com o Vitor. Também tenho correntes presas ao passado. Adorei as frases “ Tenho a chave que abre mas nunca entro. Lá de dentro um cheiro intenso a flores, segue-me, persegue-me, chama-me e protege-me! Ao lado num pequeno poial em pedra costumo deixar as flores…para as flores! Para eles.”
Conheci tudo o que se refere na infância e adolescência sobre os trabalhos campestres e afazeres domésticos. Também fui sócia da Biblioteca Itinerante embora lesse menos número de obras. Como sempre adorei escrever, desde que me conheço que tenho alguma coisa escrita (mal escrita!) Recordo-me que já redigi algo sobre essa Biblioteca cinzenta que balançava quando estavam duas ou três pessoas no seu interior. E conheci bem os dois senhores, homens finos, cultos, um recordo que se chamava Camacho.
A escola Afonso III apenas a conheci na época de exames. Fui do tempo em que os alunos do Ciclo Preparatório (Antigo 2º ano) do Externato de S.Brás de Alportel faziam as provas finais lá. Até a Escola Técnica de Tavira o fazia.
O Liceu João de Deus também me teve como aluna, infelizmente só por um ano. A distância e a falta de meios de transporte fizeram-me desanimar e desistir. Atitude que deixou meu pai triste. Ele desejava ver a filha com mais estudos, bem empregada…como hoje o compreendo! E quanto se orgulharia na Dorinha que teve mais juízo do que a mãe!
Continuando, esse contacto com a natureza, com os cheiros, as cores, os sons, também os aprecio, sinto, recordo-os e trago-os sempre no sentido. Ó Vitor apetece-me dizer com toda a minha pequenez e humildade: Deus deu-nos uns olhos que alcançam mais longe. Que vêem, o que está escondido dentro das coisas e das pessoas. O que mais me encanta na sua escrita é a sua descrição e mesmo paixão por um passado que tal como eu, não conseguiu suster, agarrar. Há em si um saudosismo enorme! A história da sua família, dos seus antecedentes foi muito interessante. Também eu adoro ir para trás no tempo. Fi-lo pesquisando horas e horas, dias e dias durante meses quando tive todos os livros paroquiais existentes de 1865 a 1948. Passei para cadernos, os nascimentos, casamentos e óbitos embora abreviasse muita coisa.
Essa do Jornal do dia do nascimento da Cinara foi um interessante pensamento. E mais uma vez as lágrimas teimaram em sair mas evito molhar o livro que afinal é mais da Dorinha do que meu e ela ainda não o leu. Até porque a visão vai sendo fraca, apesar de pôr óculos, tenho-o um pouco distante. Molhar o seu livro com as minhas lágrimas não quero! Possivelmente por ser a primeira vez que leio uma obra em que conheço tão bem o autor, parte da história, e das personagens, fazem-me ficar mais atenta e comovida. Conheço a Fernanda desde menina de escola primária. Vi-a crescer, fazer-se mulher. À Cinara ainda melhor. Sempre a conheci. Ainda me lembro um Domingo de mercado, quando eles eram dentro da aldeia, a Fernanda tinha uma barriguinha de uns cinco seis meses e escolhia numa tenda, junto à casa de Nossa Sr.ª das Dores( onde põem a mesa das festas) uma bandelete de bebé com um lacinho. A rapariga dessa barraca (Ilda) já faleceu, eram de S.Brás e agora é o marido que vende. Costumavam ter bonitos acessórios para recém-nascidos. Eu tinha a Dorinha comigo, ela teria uns nove anos mas reparou e disse-me.
-Deve ser uma menina senão a mãe não comprava um lacinho para o cabelo.
Achei imensa piada por ela estar a reparar.
Depois chegou a pequena Cinara e a minha menina já louca por crianças pedia-me quase todos os dias para a ir ver, e brincar com a pequenina. Fê-lo durante muito tempo. Contava-me como ela se desenvolvia, como já queria escrever, como era inteligente e já conhecia as letras para aí aos 2 ou 3 anos. De longe mas perto, vi-a crescer por isso emociono-me e o raio das lágrimas vêm por tudo e por nada.
“Foi Deus” para mim, se desse pontuação esse texto teria a nota máxima.
“ No Natal eu vou chorar” também fez-me chorar. Infelizmente sei o que é perder um pai e o meu foi tão cedo. Tinha 21 e ele 46 anos quando sucedeu.
A minha alma entende a “tua” (sua seria melhor, tenho dificuldade, não sei se tratar o Vitor, por tu, se por você, como é mais novo teria sentido levá-lo por tu mas o convívio é pouco e dá-se este dilema) porque sente da mesma maneira. Fazemos parte de um mundo de pessoas diferentes que vêem tudo com o coração. E foi o texto “Sem pressa” que me fez pensar assim.
É lindo o poema à Fernanda! Que o vosso amor se mantenha sempre assim, tão vivo é o que desejo. Ela teve muita sorte por Deus ter-lhe oferecido um marido “tão especial”.
Achei muita piada no seu “Elas”. Não é assim tão tosco, nem seria necessário rebaixar-se tanto para enaltecer as mulheres. Ri um pouco! Também tem sentido de humor quando quer. E obrigada na parte que me toca pelo facto de ser mulher.
Quanta ternura Vitor! E que saudade nesses pequenos passarinhos com olhos feitos de sementes de alfarroba!!!
Estou a adorar o seu livro porque faz-me vibrar, sorrir, chorar. Tudo ao mesmo tempo! Tem sentimentos! Essa cruz na porta do forno, essas rezas tenho-as na ideia e no papel feito à minha maneira de sentir. Os meus mortos também me ajudam e do céu enviam-me o carinho que às vezes aqui me falta.
São Poemas! Não quase.
O provérbio filho de peixe sabe nadar adequa-se à Cinara. Puxou a linha do papá como a avó Salomé diz! E parabéns a ela. Quem aos treze anos escreve assim como escreverá aos 18,20,30,40…anos? Temos aqui uma poetiza! Quem sabe se daqui a anos não será famosa e o seu nome se destacará? Desejo tudo de bom para ela. Muito sucesso na escola e pela vida fora, mas principalmente que saiba sempre diferenciar o que está certo do que está errado e que se reja pelos princípios do bem. Achei admiração como o poder do amarelo tem tanta influência no Vitor. A tal bola amarela…
Conheci esses meninos quase todos dos “Meninos com Dedinhos de Pauzinhos de Giz”. Se não estou enganada e decorreram já tantos anos, a Ana Lúcia era irmã da Sara. Tinham grandes olhos negros e um ou outro sinal escuro no rosto (sardas) Nas férias trocava correspondência com elas. Telefonava-lhes. Contactava-mos todos os dias em tempos de escola. Elas almoçavam no refeitório com os meninos de longe: S.Romão, Corotelo, Vilarinhos.Os alunos de Santa Catarina também comiam lá do que trazíamos de casa. A professora Zézinha orientava os mais pequeninos. Aquecia-lhes a comida num pequeno fogão a álcool. Convivíamos todas, tornávamo-nos amigas. A Luísa, a Teodora, a Eleutéria. Todos esses nomes fizeram-me regressar a esses tempos. Da Marinel estava esquecida mas o nome foi suficiente para o cérebro enviar-me o rosto dela, com o cabelo claro aos caracóis e feições muito perfeitinhas. A Salomé (se for a mesma) parece-me que era Salomé Rosa; passou férias na minha casa uma semana quando eu tinha 16 e ela uns treze anos. Foi num verão por ocasião das Festas do Largo. Os pais vieram cá à festa e um irmão, o Fernando. Dela conheci a família quase toda. Uma prima mulher de um pirotécnico que mais tarde veio a falecer vítima dos foguetes. O irmão desta, o Rogério Contreiras (não sei se é da família do Vitor!) O mundo é pequeno! Todos somos conhecidos afinal.
Eu pessoalmente gosto mais de escrever sobre factos verídicos do que sobre ficção. Acho que não tenho grande imaginação. É engraçado como o cheiro pode trazer-nos lembranças! E pronto. Parabéns ao Vitor por ser tão sensível, presentear-nos com este livro que nos deu muito prazer a ler. Que bom seria que toda a gente fosse parecida consigo. A sua escrita tem energia, movimento, acção. Não é por acaso que escreve fluentemente e transmite tão bem os seus estados de alma.
Ambos temos as asas do nosso anjo a proteger-nos. O Pedro e a Dina. Eles lá gozarão uma Felicidade nunca inferior à que lhes seria dado gozarem aqui. Assim penso! No final todos estaremos unidos. Eles avançaram mais depressa. Todos lá chegaremos embora com menor qualidade e talvez com mais sofrimento.
Fico feliz por se reger pelos princípios que eu procuro seguir: Amor à família (viva ou morta), carinho pelas lembranças infantis, juvenis…contudo temos todos pés de barro, pecamos e somos imperfeitos.
Os livros ensinam-nos muitas coisas. O seu não é excepção. Continue a escrever porque tem muito valor. E claro que os “Meninos Nunca Morrem”. Há quase dezanove anos que grito essa mensagem para todos, por essas ou por outras palavras. Uns concordam comigo, outros coitados sinto pena deles.
Esqueci-me de falar no poema “Solidão” onde me identifico muito com o Vitor. Tantas vezes escrevi parecido; eu nada sou…eu nada faço…! Aquelas frases que chegam naqueles momentos em que estamos mais deprimidos, mais tristes.
Agora sim vou terminar. Peço desculpa porque eu “falo muito escrevendo, mais do que falando”.
Obrigado, Obrigado Epifânia
“Vitor, foi com alegria misturada com tristeza, saudade e umas lágrimas a quererem sempre saltar dos olhos que iniciei a leitura do teu livro.
Já o título me comove. As palavras do Presidente, o prefácio da Isabel Maria também.
Quero absorver todas as palavras e ir até onde a sua magnífica imaginação e seu coração bondoso e humilde me levarem.
Como mãe da Dina não posso deixar de agradecer-lhe o nome dela neste livro, apesar de nunca a ter conhecido (julgo que não?) Olho à capa e numa rosa vejo logo o rosto dela.
Como é sentimental! E como me identifico em algumas coisas com o Vitor. Também tenho correntes presas ao passado. Adorei as frases “ Tenho a chave que abre mas nunca entro. Lá de dentro um cheiro intenso a flores, segue-me, persegue-me, chama-me e protege-me! Ao lado num pequeno poial em pedra costumo deixar as flores…para as flores! Para eles.”
Conheci tudo o que se refere na infância e adolescência sobre os trabalhos campestres e afazeres domésticos. Também fui sócia da Biblioteca Itinerante embora lesse menos número de obras. Como sempre adorei escrever, desde que me conheço que tenho alguma coisa escrita (mal escrita!) Recordo-me que já redigi algo sobre essa Biblioteca cinzenta que balançava quando estavam duas ou três pessoas no seu interior. E conheci bem os dois senhores, homens finos, cultos, um recordo que se chamava Camacho.
A escola Afonso III apenas a conheci na época de exames. Fui do tempo em que os alunos do Ciclo Preparatório (Antigo 2º ano) do Externato de S.Brás de Alportel faziam as provas finais lá. Até a Escola Técnica de Tavira o fazia.
O Liceu João de Deus também me teve como aluna, infelizmente só por um ano. A distância e a falta de meios de transporte fizeram-me desanimar e desistir. Atitude que deixou meu pai triste. Ele desejava ver a filha com mais estudos, bem empregada…como hoje o compreendo! E quanto se orgulharia na Dorinha que teve mais juízo do que a mãe!
Continuando, esse contacto com a natureza, com os cheiros, as cores, os sons, também os aprecio, sinto, recordo-os e trago-os sempre no sentido. Ó Vitor apetece-me dizer com toda a minha pequenez e humildade: Deus deu-nos uns olhos que alcançam mais longe. Que vêem, o que está escondido dentro das coisas e das pessoas. O que mais me encanta na sua escrita é a sua descrição e mesmo paixão por um passado que tal como eu, não conseguiu suster, agarrar. Há em si um saudosismo enorme! A história da sua família, dos seus antecedentes foi muito interessante. Também eu adoro ir para trás no tempo. Fi-lo pesquisando horas e horas, dias e dias durante meses quando tive todos os livros paroquiais existentes de 1865 a 1948. Passei para cadernos, os nascimentos, casamentos e óbitos embora abreviasse muita coisa.
Essa do Jornal do dia do nascimento da Cinara foi um interessante pensamento. E mais uma vez as lágrimas teimaram em sair mas evito molhar o livro que afinal é mais da Dorinha do que meu e ela ainda não o leu. Até porque a visão vai sendo fraca, apesar de pôr óculos, tenho-o um pouco distante. Molhar o seu livro com as minhas lágrimas não quero! Possivelmente por ser a primeira vez que leio uma obra em que conheço tão bem o autor, parte da história, e das personagens, fazem-me ficar mais atenta e comovida. Conheço a Fernanda desde menina de escola primária. Vi-a crescer, fazer-se mulher. À Cinara ainda melhor. Sempre a conheci. Ainda me lembro um Domingo de mercado, quando eles eram dentro da aldeia, a Fernanda tinha uma barriguinha de uns cinco seis meses e escolhia numa tenda, junto à casa de Nossa Sr.ª das Dores( onde põem a mesa das festas) uma bandelete de bebé com um lacinho. A rapariga dessa barraca (Ilda) já faleceu, eram de S.Brás e agora é o marido que vende. Costumavam ter bonitos acessórios para recém-nascidos. Eu tinha a Dorinha comigo, ela teria uns nove anos mas reparou e disse-me.
-Deve ser uma menina senão a mãe não comprava um lacinho para o cabelo.
Achei imensa piada por ela estar a reparar.
Depois chegou a pequena Cinara e a minha menina já louca por crianças pedia-me quase todos os dias para a ir ver, e brincar com a pequenina. Fê-lo durante muito tempo. Contava-me como ela se desenvolvia, como já queria escrever, como era inteligente e já conhecia as letras para aí aos 2 ou 3 anos. De longe mas perto, vi-a crescer por isso emociono-me e o raio das lágrimas vêm por tudo e por nada.
“Foi Deus” para mim, se desse pontuação esse texto teria a nota máxima.
“ No Natal eu vou chorar” também fez-me chorar. Infelizmente sei o que é perder um pai e o meu foi tão cedo. Tinha 21 e ele 46 anos quando sucedeu.
A minha alma entende a “tua” (sua seria melhor, tenho dificuldade, não sei se tratar o Vitor, por tu, se por você, como é mais novo teria sentido levá-lo por tu mas o convívio é pouco e dá-se este dilema) porque sente da mesma maneira. Fazemos parte de um mundo de pessoas diferentes que vêem tudo com o coração. E foi o texto “Sem pressa” que me fez pensar assim.
É lindo o poema à Fernanda! Que o vosso amor se mantenha sempre assim, tão vivo é o que desejo. Ela teve muita sorte por Deus ter-lhe oferecido um marido “tão especial”.
Achei muita piada no seu “Elas”. Não é assim tão tosco, nem seria necessário rebaixar-se tanto para enaltecer as mulheres. Ri um pouco! Também tem sentido de humor quando quer. E obrigada na parte que me toca pelo facto de ser mulher.
Quanta ternura Vitor! E que saudade nesses pequenos passarinhos com olhos feitos de sementes de alfarroba!!!
Estou a adorar o seu livro porque faz-me vibrar, sorrir, chorar. Tudo ao mesmo tempo! Tem sentimentos! Essa cruz na porta do forno, essas rezas tenho-as na ideia e no papel feito à minha maneira de sentir. Os meus mortos também me ajudam e do céu enviam-me o carinho que às vezes aqui me falta.
São Poemas! Não quase.
O provérbio filho de peixe sabe nadar adequa-se à Cinara. Puxou a linha do papá como a avó Salomé diz! E parabéns a ela. Quem aos treze anos escreve assim como escreverá aos 18,20,30,40…anos? Temos aqui uma poetiza! Quem sabe se daqui a anos não será famosa e o seu nome se destacará? Desejo tudo de bom para ela. Muito sucesso na escola e pela vida fora, mas principalmente que saiba sempre diferenciar o que está certo do que está errado e que se reja pelos princípios do bem. Achei admiração como o poder do amarelo tem tanta influência no Vitor. A tal bola amarela…
Conheci esses meninos quase todos dos “Meninos com Dedinhos de Pauzinhos de Giz”. Se não estou enganada e decorreram já tantos anos, a Ana Lúcia era irmã da Sara. Tinham grandes olhos negros e um ou outro sinal escuro no rosto (sardas) Nas férias trocava correspondência com elas. Telefonava-lhes. Contactava-mos todos os dias em tempos de escola. Elas almoçavam no refeitório com os meninos de longe: S.Romão, Corotelo, Vilarinhos.Os alunos de Santa Catarina também comiam lá do que trazíamos de casa. A professora Zézinha orientava os mais pequeninos. Aquecia-lhes a comida num pequeno fogão a álcool. Convivíamos todas, tornávamo-nos amigas. A Luísa, a Teodora, a Eleutéria. Todos esses nomes fizeram-me regressar a esses tempos. Da Marinel estava esquecida mas o nome foi suficiente para o cérebro enviar-me o rosto dela, com o cabelo claro aos caracóis e feições muito perfeitinhas. A Salomé (se for a mesma) parece-me que era Salomé Rosa; passou férias na minha casa uma semana quando eu tinha 16 e ela uns treze anos. Foi num verão por ocasião das Festas do Largo. Os pais vieram cá à festa e um irmão, o Fernando. Dela conheci a família quase toda. Uma prima mulher de um pirotécnico que mais tarde veio a falecer vítima dos foguetes. O irmão desta, o Rogério Contreiras (não sei se é da família do Vitor!) O mundo é pequeno! Todos somos conhecidos afinal.
Eu pessoalmente gosto mais de escrever sobre factos verídicos do que sobre ficção. Acho que não tenho grande imaginação. É engraçado como o cheiro pode trazer-nos lembranças! E pronto. Parabéns ao Vitor por ser tão sensível, presentear-nos com este livro que nos deu muito prazer a ler. Que bom seria que toda a gente fosse parecida consigo. A sua escrita tem energia, movimento, acção. Não é por acaso que escreve fluentemente e transmite tão bem os seus estados de alma.
Ambos temos as asas do nosso anjo a proteger-nos. O Pedro e a Dina. Eles lá gozarão uma Felicidade nunca inferior à que lhes seria dado gozarem aqui. Assim penso! No final todos estaremos unidos. Eles avançaram mais depressa. Todos lá chegaremos embora com menor qualidade e talvez com mais sofrimento.
Fico feliz por se reger pelos princípios que eu procuro seguir: Amor à família (viva ou morta), carinho pelas lembranças infantis, juvenis…contudo temos todos pés de barro, pecamos e somos imperfeitos.
Os livros ensinam-nos muitas coisas. O seu não é excepção. Continue a escrever porque tem muito valor. E claro que os “Meninos Nunca Morrem”. Há quase dezanove anos que grito essa mensagem para todos, por essas ou por outras palavras. Uns concordam comigo, outros coitados sinto pena deles.
Esqueci-me de falar no poema “Solidão” onde me identifico muito com o Vitor. Tantas vezes escrevi parecido; eu nada sou…eu nada faço…! Aquelas frases que chegam naqueles momentos em que estamos mais deprimidos, mais tristes.
Agora sim vou terminar. Peço desculpa porque eu “falo muito escrevendo, mais do que falando”.
Obrigado, Obrigado Epifânia
vitor barros
Domingo, 13 de Julho de 2008
CHEGOU O MEU LIVRO

Chamo-me Vitor e ninguém me conhece…
Nasci em Setembro de 1962, no Sítio da Fonte da Murta em S.Brás de Alportel.
Moro em Santa Catarina da Fonte do Bispo. Também ninguém conhece a Fonte da Murta e poucos conhecerão Santa Catarina…
Nunca sonhei publicar um livro. Nunca pensei em publicar um livro.
Tudo começou quando resolvi criar um Blog. Comecei a escrever pequenos textos e a gostar dos mesmos. Comecei a ter alguns leitores e alguns comentários. Ao fim de algum tempo tinha muitos leitores e muitos comentários.
Começaram a convencer-me que deveria publicar os meus textos. Quase que me obrigaram, picaram-me, empurraram-me…
Por isso este livro é um pouco de todos vocês. De todos estes meus amigos virtuais sem excepção. De todos aqueles a quem eu, quando encerrei o Blog prometi que voltaria. De todos aqueles a quem eu prometi que se estivessem atentos iriam reconhecer-me porque aquele cheiro a flores, aquele cheiro a povo estaria comigo.
Para toda a comunidade virtual, simbolizada na pessoa da minha conterrânea e “mana” adoptiva Isabel Maria , que tanto me incentivou, comentou e falou no livro, fica o meu especial obrigado e a responsabilidade de ser ela a porta-voz do meu agradecimento. O prefácio também é de sua autoria.
Aos especialistas em vírgulas, pontos finais, pontuação e demais aspectos técnicos, deixo o meu pedido de desculpa pelas incorrecções e erros cometidos e garanto-vos que tudo, tudo quanto está aqui, desde a capa até ao último ponto final, foi feito por mim, sozinho e sem qualquer ajuda.
Espero que gostem. Se não gostarem paciência. …humildemente vos confesso: é que, e muito francamente, também não sei fazer melhor….
Embora sem a vossa autorização, tomei a ousadia de incluir no livro alguns dos comentários que tiveram a amabilidade de tecer ao texto que deu origem ao título que dei a este livro:
Maria disse... http://ocheirodailha.blogspot.com/
Tive que parar a meio da leitura para secar as lágrimas. Porque já não vias as letras. Porque este Pedro pode ter outro nome para mim. Mas não, é o teu Pedro. O que jogava à bola contigo. Não o que brincava comigo.Tenho um enorme nó na garganta que não me deixa escrever o que quero. Porque não devo. Apenas te digo, que, se os meninos nunca morrem, a verdade é que a gente deixa de os ver....Um beijo enorme para ti.
Sophiamar disse... http://sophiamar.blogspot.com/
Dá-me a mão. Senta-te aqui ao pé de mim. Vamos chorar os dois. O Pedro teria 23 anos se cá estivesse. Deixou a bola cheia de sonhos, a bicicleta cheia de saudade dos cavalinhos, das piruetas, das travagens, o cão e o gato, ficaram sem um dos donos, o mais irrequieto, o mais brincalhão, e nós por cá continuamos sem as suas gargalhadas, as suas marotices....mas sempre com ele porque tudo nos fala de si. O avô partiu e devem estar juntos...e por cá a saudade lavra o corpo, lavra a alma, deixa sulcos no coração. Voltarei mano amigo, a ler, a reler, a olhar o Pedro, um dos filhos da tua mana, sobrinho de um amigo que jamais esquecerei.Voltarei. Preciso de dizer-te, repetir quanto gostei de ti, das tuas palavras, dos teus posts, do afecto imperdível que aqui sempre deixaste.Beijinhos...a chorar contigo. De mão dada.
amigona avó e a neta princesa disse... http://amigonasempreblogger.blogspot.com/
Só consigo chorar...não vou embora envergonhada vou porque agora tenho que ir!
Carminda Pinho disse... http://forum-cidadania.blogspot.com/
Não consigo dizer nada! Mas deixo-te um grande abraço, do tamanho da ternura que imanas deste post.Até qualquer dia!Beijos
augustoM disse... http://klepsidra.blogspot.com/
Por onde quer que vás, que sejas feliz.Um abraço. Augusto
bettips disse... http://bettips.blogspot.com/
Abraço para o que não é possível compreender: só abraçar.
lena disse... http://uma_cabana.blogspot.com/
Meu amigo:li, reli, parei, voltei ao princípio de tudo para e via sempre o Pedrodifícil dizer-te algo, difícil não sentir, difícil não chorar...permite que vá buscar a buscar a tua última frase e a coloque aqui: "Os putos nunca caem, os MENINOS NUNCA MORREM!"e como ler-te é um privilégio fui buscar para aqui uma promessa tua:"Obrigado...Eu voltarei!"virei de novo para te reler, para dizer que estou contigo.Fica o meu abraço, um abraço cheio de força, de amizadebeijo meue até jálena
Laura disse... http://resteadesol.blogspot.com/
O Pedro continua a viver, ele vem perto de ti, ele senta-se junto de ti e leu o que escreveste para ele, ele ama-te como sempre e espera pacientemente que chegue o vosso dia de ir, e então!...lá também se joga a bola e se brinca...És um querido e amado tio e que sorte que ele te teve.Teve de ser assim, infelizmente, nós não entendemos o porquê das cosias, mas tudo tem uma razão de ser.beijinho para ti e volta depressa até nós.laura..
margusta disse... http://momentossentidos2.blogspot.com/
Amigo...o teu blog ficou mais vivo do que nunca!...E a memória de Pedro permanece agora em muitos mais corações.Este teu texto está dolorosamente bem escrito...de comover até ás lágrimas...Um abraço enorme para ti!...Espero encontrar-te por aí, noutro cantinho qualquer...
Pascoalita disse... http://pascoalita.blogspot.com/
Geralmente "O que é bom dura pouco"Isto para reafirmar o que digo desde o início ... os textos deste Blog são do melhor que tenho lido por aqui. Como muitas outras coisas na vida, nunca entenderei porque devemos ficar privados da sua leitura, mas lá terá as suas razões.Sobre o post e seu conteúdo, devido ao pré-aviso, foi-me relativamente fácil controlar a emoção.·Não vou explicar em que me baseio mas a minha convicção leva-me a reformular a frase final:Os bons escritores nunca pararão de escrever!Prometo ficar atenta, ou melhor mais atenta.Feliz Natal1 beijo
Dulce disse... http://paralemdemim.blogspot.com/
Demasiado tempo sem passa por aqui... E agora que vinha matar saudades, encontro uma despedida! E pior ainda! Os textos retirados. Eu sei que os blogs duram o tempo que tiverem que durar... depois há que partir e talvez recomeçar de novo... de outra forma. Se os publicares - os textos - dá-me alguma indicação para o meu e-mail. Gostaria de ter o teu livro. Tens uma forma muito especial de escrever. Toca-nos cá dentro... (E para além disso és da terra onde a minha mãe nasceu!!!))Um beijo enorme e espero voltar a encontrar-te por aqui.
António disse... http://eusoulouco2.blogs.sapo.pt/
Meu caro amigo!No teu último texto deste blog atingiste o clímax da arte de bem escrever.Uma peça notável que não pode deixar de tocar quem a lê.Espero que um dia voltes e que eu ainda por aqui ande para te poder ler.Um grande abraço
Odele Souza disse... http://flaviavivendoemcoma.blogspot.com/
Lindo e comovente este teu texto sobre Pedro. Lamento muito que estejas de partida. Leva contigo o meu carinho.
Bichodeconta disse... http://alvesbesuga.blogspot.com/
Vou sentar-me ao teu lado, segurar a tua mão e chorar contigo, pelo teu Pedro e por todos os Pedros que conhecemos, e são tantos. Gosto tanto de o ler, espero que um dia, quem sabe, voltará ao nosso convívio. Um abraço, ell
Um Momento disse... http://somomentos.blogspot.com/
Depois de parar imensas vezes de te ler... sem deixar de te sentir...Abraço-te imensamente...Desculpa nada mais conseguir dizer
Isabel Teotónio: disse...
Obrigada, pelas lágrimas derramadas...obrigada, por as teres derramado...obrigada, por tão belo feio momento!Ele, de onde está, e junto dos demais...também te agradece.Enquanto houver quem se lembre dele,Ele sempre viverá!Bem o dizes: Os meninos nunca morrem!Um abraço de nós todos p/todos vós.
Baby disse... http://mar-la-vento.blogspot.com/
Fizeste-me chorar, porque a tua história foi tão verdadeira que me fez lembrar outros Pedros que não "morreram", mas que desapareceram do nosso convívio, deixando uma saudade tão grande que nada jamais desvanecerá.Chorei também, porque não mais me deixarás enternecer com as tuas histórias tão especiais, que as guardarei para sempre no coração.Foi uma dádiva, conhecer-te.
Gata Verde disse... http://viajandoevivendo.blogspot.com/
Até sempre...
Cristina disse... http://estrelices.blogspot.com/
Há situações que nunca ninguém deveria passar por elas.Resta-me dizer-te... não "adeus" (odeio despedidas), mas ATÉ BREVE, porque, quem sabe, um dia, nos encontraremos.
Carracinha linda! disse... http://carracinhalinda.blogspot.com/
Foi muito difícil ler este post sem chorar.Como escreveste: os meninos não morrem. Nem tão pouco se esquecem. Mesmo que já tenham passado alguns anos. E o Pedro viverá para sempre na tua memória e fará sempre parte das tuas recordações. No sítio para onde o Pedro está, está também uma bicicleta na qual ele se farta de fazer habilidades e cavalinhos. E tem lá também uma bola com a qual tem marcado muitos golos.A dor de perder alguém nunca passa... mas valem as boas recordações que temos dessas pessoas...Mais uma vez, fico triste por saber do fim do blog. É que todos os textos são simplesmente fantásticos. Não se encontram muitos deste género por aqui.Quem sabe um dia não voltas? Vou ficar a pensar que sim.Se não nos "virmos" antes, desejo já um Feliz Natal com muita saúde e na companhia de todos os que te são queridos.Beijinhos
Rafeiro Perfumado disse... http://rafeiroperfumado.blogspot.com/
Caro, tive o prazer de ser dos primeiros a "conhecer-te" neste meio. Deliciei-me com a qualidade dos teus textos, qualidade essa ao alcance de muito poucos, acredita.É com pena que vejo encerrar o blog, apesar de compreender perfeitamente os motivos. Mas peço-te, nunca o apagues, pois é uma memória sentida que irá permanecer por aqui, quem sabe servindo de consolo a outros tios de outros Pedros…Um grande abraço.
Girassol disse... http://omeugirassol.blogspot.com/
Texto que dispensa qualquer palavra... importa apenas que todos os pensamentos aqui conduzem ao mesmo!!!!!!!Um beijo enorme.
her disse... http://lubiden.blogspot.com/
As nossas vidas estão cheias de Pedro e de pessoas por chorar…
Respeito-te tanto.E as lágrimas são necessárias para levar o que o tempo insiste em não levar.Um beijo enorme
Sisi disse... http://sisi-omundodossentimentos.blogspot.com/
Olá passei para te deixar um doce beijinho e votos de um bom e feliz natal com muita alegria, saúde e muito amor...tudo de bom para ti
Teresa David disse... http://teresadavid.blogspot.com/
Não desista de escrever. As suas histórias já escritas e as que irão florescer decerto, pois dá para ver que a escrita faz parte de si, não poderão parar. Continue, pelo meu lado estarei atenta a seguir o que tiver para nos contar.Um ano Novo feliz, se possível, e cheio de histórias de alegria de viver, pois nem tudo são tristezas nesta vida. E eu sei o que digo!Beijos
GTL disse... http://gabinetedetemposlivres.blogspot.com/
Tenho pena que tenha acabado. Passei para desejar que tenham passado um Feliz Natal e desejar um excelente 2008 TG
Blueshell disse... http://blueshell.blogspot.com/
E o Pedro não morreu! Ele permanece vivo dentro dos que o amam. Permanece através das memórias, e das lágrimas de saudade.Ele viverá para sempre...Um enorme abraço...bem forte.BlueShell
Pascoalita disse... http://pascoalita.blogspot.com/
Deixo-te os meus votos de um Ano Novo muito próspero! Que se concretizem todos os projectos e sonhos e que sejas Feliz, sempre!Um beijo
poca disse... http://offmeansoff.blogspot.com/
Sempre difíceis as despedidas.Sempre a vida a tentar adiar a morte. Sempre o amor a tentar resgatar pedaços de vida de alguém que já morreu.Não aprendi a dizer adeus.Por causa disso cada vez mais me custa dizer Olá.
foryou disse... http://againandagainforyou.blogspot.com/
Vinha desejar-te um bom 2008...O desejo mantém-se mas deixo mais umas palavras: aprendi na vida que ninguém morre enquanto a nossa memória não deixar!Um beijo enorme para ti. Um obrigada por todas as palavras que me deste em 2007
Sophiamar disse... http://sophiamar.blogspot.com/
Meu Querido ManoO Cusco morreu? Jamais! Este rafeiro que tens do lado direito do teu blog, vai ficar a morar no meu. Posso?Bem, o Ano Novo está à porta, o velho de saída e não poderia deixá-lo partir sem vir aqui dizer-te que te desejo tudo, tudo igualzinho ao que quero para mim. Se puderes ter a dobrar, tanto melhor. Disseste-me palavras que jamais esquecerei, escreveste posts a que ninguém podia ficar indiferente, criaste afectos com raízes daquele chão condimentado com as "especiarias" da serra que tanto nos deu.Tu estás de volta, devagarinho, muito, muito de mansinho...Não poderás deixar-nos porque jamais te esqueceremos.Deixo-te um abraço apertado em laço da amizade fraterna da mais pura que a serra tem e mil beijinhos das gotas de água ribeiro que atravessa as veredas e atalhos que calcorreei em menina.Tem um Ano muito feliz. À meia-noite pensarei em ti. Por que razão terás dito que doutores, engenheiros, professores não te teriam olhado? Tu és tão bonito, Cusco! E tão bom! Um profissional esmerado.Isabel, tua amiga e mana de adopção. É o coração!
Um Momento disse... http://somomentos.blogspot.com/
Aqui passei para te desejar um Bom Ano novoBeijo Imenso e agradecido por tudo... a TI!
bettips disse... http://bettips.blogspot.com/
Porque há gente que nem sabemos como ou onde existe. Mas se recorda.Passo a deixar desejos de voltar.Beijos
A todos o meu Obrigado
Vitor Barros
Sexta-feira, 13 de Junho de 2008
XI- A Cidade e o Futebol
Cidade sem sol
Triste, fria!
Cidade sem sol
Sem luz do dia
Cidade sem sol
Negra, escura, impura
Triste vagabunda
Sem ser fecunda
Cidade com sol
Alegre, viva
Cidade com sol
Grande e altiva
Cidade com sol
Grande, bela, pura
Cidade verdura
Cidade com sol
Cidade em dia de futebol!
Vitor Barros
Triste, fria!
Cidade sem sol
Sem luz do dia
Cidade sem sol
Negra, escura, impura
Triste vagabunda
Sem ser fecunda
Cidade com sol
Alegre, viva
Cidade com sol
Grande e altiva
Cidade com sol
Grande, bela, pura
Cidade verdura
Cidade com sol
Cidade em dia de futebol!
Vitor Barros
Domingo, 18 de Maio de 2008
X- Não me contive e chorei...
Fiquei confuso! Estavas no parque e arrumar carros. Arranjas-te um lugar para o meu e ajudaste-me na manobra.
Fiquei confuso porque ao sair do carro com a moeda na mão não te vi e não a vieste buscar. Desapareceras!
Fiquei confuso e fui espreitar. Vi-te no outro extremo do parque longe do local onde eu ficara, afastado de propósito. E então eu percebi…
Afinal eu não te tinha visto…
Muitos anos atrás, éramos putos, reguilas, estudantes do ciclo. Três anos na mesma turma, mais dois de liceu. Juntos jogámos quilómetros de futebol, fumamos às escondidas o primeiro de milhares de cigarros e bebemos comprometidos as primeiras de muitas cervejas, piscámos o olho às primeiras raparigas.
Faltámos a dezenas de aulas, fomos para a praia, a pé e à boleia! Perdemo-nos nas salinas, nos terrenos do aeroporto, nos pinheiros.
Jogávamos às cartas por dinheiro, tocávamos às campainhas e escondíamo-nos. Éramos putos do ciclo, reguilas alegres e livres.
Já no liceu, um pouco menos putos, continuámos putos reguilas e sonhadores. Lembro-me que sonhavas com uma mota e de que falavas que gostarias de um dia ter um bar.
Passaram-se muitos anos. Nunca mais te vi. Não sei se algum dia tiveste uma mota e um bar.
Voltei ao mesmo parque uns dias depois. Não te vi, não estavas lá! Perguntei a um teu colega o que te tinha sucedido:
-Partiu…para sempre!
Percebi. Percebi e então tive vergonha. Vergonha da vergonha que tiveste, tive vergonha de não ter ido fumar um cigarro e beber uma cerveja contigo, tive vergonha de não ter ficado a saber se algum dia tiveste uma mota e um bar.
E naquele parque onde afinal não te vi, encostei-me ao carro e sem vergonha não me contive e chorei!
Descansa em paz.
Nota: Texto real... Arrumava carros em Faro, perto de um café de nome: O SEU CAFÉ. A minha “mana Isabel” deve-se ter cruzado com ele também!
Até breve
SE DEUS QUISER
Fiquei confuso porque ao sair do carro com a moeda na mão não te vi e não a vieste buscar. Desapareceras!
Fiquei confuso e fui espreitar. Vi-te no outro extremo do parque longe do local onde eu ficara, afastado de propósito. E então eu percebi…
Afinal eu não te tinha visto…
Muitos anos atrás, éramos putos, reguilas, estudantes do ciclo. Três anos na mesma turma, mais dois de liceu. Juntos jogámos quilómetros de futebol, fumamos às escondidas o primeiro de milhares de cigarros e bebemos comprometidos as primeiras de muitas cervejas, piscámos o olho às primeiras raparigas.
Faltámos a dezenas de aulas, fomos para a praia, a pé e à boleia! Perdemo-nos nas salinas, nos terrenos do aeroporto, nos pinheiros.
Jogávamos às cartas por dinheiro, tocávamos às campainhas e escondíamo-nos. Éramos putos do ciclo, reguilas alegres e livres.
Já no liceu, um pouco menos putos, continuámos putos reguilas e sonhadores. Lembro-me que sonhavas com uma mota e de que falavas que gostarias de um dia ter um bar.
Passaram-se muitos anos. Nunca mais te vi. Não sei se algum dia tiveste uma mota e um bar.
Voltei ao mesmo parque uns dias depois. Não te vi, não estavas lá! Perguntei a um teu colega o que te tinha sucedido:
-Partiu…para sempre!
Percebi. Percebi e então tive vergonha. Vergonha da vergonha que tiveste, tive vergonha de não ter ido fumar um cigarro e beber uma cerveja contigo, tive vergonha de não ter ficado a saber se algum dia tiveste uma mota e um bar.
E naquele parque onde afinal não te vi, encostei-me ao carro e sem vergonha não me contive e chorei!
Descansa em paz.
Nota: Texto real... Arrumava carros em Faro, perto de um café de nome: O SEU CAFÉ. A minha “mana Isabel” deve-se ter cruzado com ele também!
Até breve
SE DEUS QUISER
Segunda-feira, 12 de Maio de 2008
PARABÉNS DORA
A Dora cresceu depressa… Muito depressa. Tão depressa que sábado vai ter a sua festa de fim de Curso.
Sem ter palavras com que a possa elogia ou incentivar e desejando-lhe as maiores felicidades limito-me a dizer-lhe:
Vai Dora, segue em frente. Avança em direcção ao futuro.
Constrói um ninho de esperança, um caminho de amor.
Vive, aproveita a beleza do nascer do sol, o cantar dos passarinhos. Veste a tua alma com a branca flor das amendoeiras e o teu sorriso com o seu perfume.
Reparte o teu amor pelos outros. Recebe o amor dos outros. Partilha-o, difunde-o transmite-o.
Vai Dora, segue em frente, sem medo. Avança em direcção ao futuro.
Sê feliz, boa profissional, boa esposa, boa mãe. Ajuda a crescer os nossos futuros médicos, advogados, pedreiros ou padeiros. Ajuda-os a pintar a tela da sua vida impregnando-a com o teu perfume.
Vai Dora, vai em frente! Avança em direcção ao futuro e de certeza que nunca a branca flor das amendoeiras deixará de perfumar o quintal da tua vida.
PARABÉNS DORA
Vítor Barros
Domingo, 13 de Abril de 2008
IX- O APITO DOS COMBOIOS E A ERMELINDA
No dia em que se ia reformar acordou cedo. Sentia a cabeça vazia esvaziada de vida, amorfa e inútil como uma peça decorativa que alguém lhe colara ao tronco. O estômago rugia-lhe como uma fera ferida e ardia-lhe como um fogo. Maldita azia que o acompanhava desde há longos anos, mastigando-lhe as vísceras, comendo-o aos poucos, rasgando-o por dentro. Levantou-se, vestiu-se e preparou-se para fazer o caminho que durante mais de quarenta anos sempre fizera. Iria passar pelos mesmos locais à mesma hora…Quando saísse ouviria o primeiro comboio a apitar, negro, enorme e enrolado numa nuvem de fumo.Gostava de os ouvir apitar, o som alegrava-o, acordava-o fazia-o por vezes sentir-se vivo. Mais à frente na casa amarela, de um amarelo já pálido e mortiço, na esquina da curva estaria a Ermelinda ainda bonita e sempre com aquele ar triste, pendurando na corda as camisas, as calças, as meias cheirando a lavado e pingando tristemente para o chão como que suspirando por um sol ainda sem força. Era a vida.. dizia anos e anos a fio a Ermelinda, sorrindo para o sabão.
(Detestava ouvir os comboios apitar, dissera-lhe um dia: Pareciam-lhe almas penadas gemendo na noite escura.) Detestava também a azia e aquele amarelo morto que a casa lhe pusera na alma…
Mais à frente a velha árvore onde se costumava sentar um pouco continuaria lá imponente, a ver passar vidas por ela sem se reformar sem pingar tristemente para o chão sem azia nas suas raízes carnudas, ouvindo os comboios apitar. Também gostava daquela árvore.Vira-o envelhecer, parecia que por vezes lhe sorria e zombava dele. Adiante um pouco, dobrada a última curva da estrada lá estava o monstro que lhe comera a vida, que lhe pusera a cabeça vazia e azedara o estômago, lá estavam as suas veias de aço carnudo suportando o peso dos apitos gemendo na noite. No seu pequeno gabinete meia dúzia de recordações para trazer, uns colegas para despachar e um pequeno chefe de nariz vermelho e óculos tristes pendurados já nem se lembrariam que ele alguma vez existira E o raio da azia sempre a apoquenta-lo. Fria, cortante mais negra que o apitar dos comboios.
Em frente ao espelho preparou-se para desfazer a barba. O vapor da água quente concentrada no espelho não o deixava ver bem. Passou a lâmina pelos brancos pelos e a imagem distorcida devolveu-lhe uma cara diferente da sua.Estava velho, amarelo (aquele amarelo da morte) minado pela vida, cansado. Acabou de arrancar os últimos fios e lavou a cara. Sentiu-se melhor, o outro que estava no espelho já estava mais parecido com ele. Sorriu-lhe e despediu-se dele. Nunca mais se veriam, pensou!
Saiu e começou a caminhar, seria a última vez que fazia aquela viagem. Quando olhou para trás, o outro, o do espelho estava atrás dele, segredou-lhe qualquer coisa e riu, riu muito e empurrou-o suavemente.
Quando chegou à casa amarela já estava decidido e não hesitou. Saltou para uma das camisas ficando ali pingando tristemente. Quando a Ermelinda chegou cheirando a sabão lavado e o levou junto ao resto da roupa já não tinha azia. Apertou-se de encontro a ela segredou-lhe docemente ao ouvido que nunca mais os comboios lhe pareceriam almas penadas gemendo…
Quando o outro, o do espelho, passou por eles apitou suavemente e continuou a rir..
Vitor Barros
(Detestava ouvir os comboios apitar, dissera-lhe um dia: Pareciam-lhe almas penadas gemendo na noite escura.) Detestava também a azia e aquele amarelo morto que a casa lhe pusera na alma…
Mais à frente a velha árvore onde se costumava sentar um pouco continuaria lá imponente, a ver passar vidas por ela sem se reformar sem pingar tristemente para o chão sem azia nas suas raízes carnudas, ouvindo os comboios apitar. Também gostava daquela árvore.Vira-o envelhecer, parecia que por vezes lhe sorria e zombava dele. Adiante um pouco, dobrada a última curva da estrada lá estava o monstro que lhe comera a vida, que lhe pusera a cabeça vazia e azedara o estômago, lá estavam as suas veias de aço carnudo suportando o peso dos apitos gemendo na noite. No seu pequeno gabinete meia dúzia de recordações para trazer, uns colegas para despachar e um pequeno chefe de nariz vermelho e óculos tristes pendurados já nem se lembrariam que ele alguma vez existira E o raio da azia sempre a apoquenta-lo. Fria, cortante mais negra que o apitar dos comboios.
Em frente ao espelho preparou-se para desfazer a barba. O vapor da água quente concentrada no espelho não o deixava ver bem. Passou a lâmina pelos brancos pelos e a imagem distorcida devolveu-lhe uma cara diferente da sua.Estava velho, amarelo (aquele amarelo da morte) minado pela vida, cansado. Acabou de arrancar os últimos fios e lavou a cara. Sentiu-se melhor, o outro que estava no espelho já estava mais parecido com ele. Sorriu-lhe e despediu-se dele. Nunca mais se veriam, pensou!
Saiu e começou a caminhar, seria a última vez que fazia aquela viagem. Quando olhou para trás, o outro, o do espelho estava atrás dele, segredou-lhe qualquer coisa e riu, riu muito e empurrou-o suavemente.
Quando chegou à casa amarela já estava decidido e não hesitou. Saltou para uma das camisas ficando ali pingando tristemente. Quando a Ermelinda chegou cheirando a sabão lavado e o levou junto ao resto da roupa já não tinha azia. Apertou-se de encontro a ela segredou-lhe docemente ao ouvido que nunca mais os comboios lhe pareceriam almas penadas gemendo…
Quando o outro, o do espelho, passou por eles apitou suavemente e continuou a rir..
Vitor Barros
Domingo, 16 de Março de 2008
VIII- A PROCISSÃO
O padre Domingos dormira mal durante a noite e acordara com a sensação que aquele dia de procissão que se aproximava não lhe iria correr muito bem. Durante toda a noite mal pregara olho. Maus sonhos, um desconforto enorme e uma sensação de angústia não o deixaram descansar o suficiente. Sonhara com pássaros, com penas, com flores murchas, com chá sabendo a limões podres... Durante toda a noite, nas redondezas, os cães tinham ladrado desesperadamente e de manhã quando abrira o postigo e espreitara o alvorecer do dia, a primeira coisa que avistara tinha sido um pintainho amarelo, morto pingando ainda sangue e sujando-lhe a soleira da porta.
Tomara um pequeno-almoço simples, muito leve e mesmo assim sentia o estômago como que a ferver. O fígado e o pâncreas davam-lhe pancadas agudas trazendo-lhe maus sabores à boca.
Deu a primeira volta pela igreja examinando aqueles pormenores de rotina. O altar, as flores…Viu se tinha ainda velas em quantidade suficiente. Espreitou o andor, ainda por acabar de enfeitar. Foi verificar se as vestes que iria vestir estavam devidamente limpas e passadas a ferro.
O primeiro foguete soou ainda muito cedo tentando acordar a aldeia para a festa que se aproximava. Durante toda a noite se tinha trabalhado afincadamente para de manhã estar tudo embelezado e florido para receber os milhares de visitantes que viriam assistir à grandiosa procissão. Milhares de flores verdejavam em canteiros desenhados geometricamente na estrada que conduzia à igreja, onde tudo iria ficar engalanado e brilhando de fulgor, esperando a hora de sair a procissão.
Pelas janelas espreitavam vistosas colchas e as senhoras traziam os seus melhores vestidos dando o braço a lustrosos maridos que arfavam dentro de apertados fatos.
Outros, sorridentes, de olhar másculo e aperaltados para o efeito, cavalgavam garbosas tochas enfeitadas com flores, ao som das quais iriam exacerbar a sua imensa fé propagando-a a plenos pulmões pelas perfumadas artérias da vila. Nas vistosas janelas a cor de algumas colchas misturava-se com o colorido das flores. Ufanas e vaidosas donas de casa arvorando um ar de superioridade espreitavam o crescente movimento na urbe.
Vendedores de balões, farturas, bolos e doces faziam bom negócio, enquanto em tudo quanto era cafés e pastelarias os donos esfregavam as mãos de contentamento perante o alegre tilintar das caixas registadoras. Crianças, rebocadas pelos pais, passavam assarapantadas sacudindo do fato novo o resto do açúcar que o último bolo tinha lá deixado.
No ar o crescente cheiro a devoção e misticismo misturava-se com o perfumado cheiro de rosmaninho e demais flores campestres. O sol, bola de fogo ardendo no firmamento sorria enquanto que uma ligeira brisa destapava alguns dos penteados mais trabalhados.
Tudo sorria e parecia cantar esperando os primeiros acordes da centenária banda musical que em breve chegaria.
Na igreja o Padre Domingos não dava para tudo. Afogueado andava de um lado para o outro num torvelinho. Era preciso compor um pouco mais o andor, endireitar aquele ramo de rosas, agrupar as crianças por sítios e por idades. Suava abundantemente e ansiava pela saída da procissão. E os azedos do maldito fígado a virem-lhe à boca…
Ansioso e nervoso, começava a estranhar a demora da música… Costumavam chegar sempre cedo para ensaiar um pouco, afinar as cordas vocais, e desta vez ainda nem sinais!
A sensação de desconforto agudizava-se… parecia-lhe estar com visões, como que flutuando no seu próprio mal-estar, meio ébrio… Começou a ficar amarelo e a ver tudo amarelo à sua volta. Não estranhou, nem reparou neles quando grandes e negros, ladrando e babando-se entraram na igreja. Nas suas bocas negras, cheias de penas, pequenos pintainhos amarelos debatiam-se ainda. Saíram rosnando, medonhos, pela porta lateral deixando no chão da igreja um rasto de penas e pintainhos sangrando. E foi daí que eles começaram a sair. Pequeninos primeiro, crescendo à medida que avançavam, festivamente vestidos de amarelo perfilaram-se em frente à igreja começando a ensaiar os primeiros acordes.
Vieram pedir-lhe se podia começar a procissão, pois a banda já estava a postos e o povo impaciente e cheio de calor…
Quando à noite se foi deitar sentindo o estômago a ladrar de amarelo e foi espreitar o andor verificou que no lugar das flores estavam penas e dezenas de pintainhos mortos…Dormiu durante oito dias seguidos!
Quando acordou e espreitou pelo postigo, o sangue do pintainho tinha secado na soleira da porta transformando-se num pequeno raio de sol amarelo.
A banda musical pingando sangue dos seus instrumentos e sujando-lhe todo o adro da igreja, continuava a tocar……Um povo desgrenhado, urrando e ululando gritava: Aleluia, Aleluia…
Benzeu-se três vezes e foi preparar um chá.
Com limões, forte e amarelo!
Vitor Barros
Tomara um pequeno-almoço simples, muito leve e mesmo assim sentia o estômago como que a ferver. O fígado e o pâncreas davam-lhe pancadas agudas trazendo-lhe maus sabores à boca.
Deu a primeira volta pela igreja examinando aqueles pormenores de rotina. O altar, as flores…Viu se tinha ainda velas em quantidade suficiente. Espreitou o andor, ainda por acabar de enfeitar. Foi verificar se as vestes que iria vestir estavam devidamente limpas e passadas a ferro.
O primeiro foguete soou ainda muito cedo tentando acordar a aldeia para a festa que se aproximava. Durante toda a noite se tinha trabalhado afincadamente para de manhã estar tudo embelezado e florido para receber os milhares de visitantes que viriam assistir à grandiosa procissão. Milhares de flores verdejavam em canteiros desenhados geometricamente na estrada que conduzia à igreja, onde tudo iria ficar engalanado e brilhando de fulgor, esperando a hora de sair a procissão.
Pelas janelas espreitavam vistosas colchas e as senhoras traziam os seus melhores vestidos dando o braço a lustrosos maridos que arfavam dentro de apertados fatos.
Outros, sorridentes, de olhar másculo e aperaltados para o efeito, cavalgavam garbosas tochas enfeitadas com flores, ao som das quais iriam exacerbar a sua imensa fé propagando-a a plenos pulmões pelas perfumadas artérias da vila. Nas vistosas janelas a cor de algumas colchas misturava-se com o colorido das flores. Ufanas e vaidosas donas de casa arvorando um ar de superioridade espreitavam o crescente movimento na urbe.
Vendedores de balões, farturas, bolos e doces faziam bom negócio, enquanto em tudo quanto era cafés e pastelarias os donos esfregavam as mãos de contentamento perante o alegre tilintar das caixas registadoras. Crianças, rebocadas pelos pais, passavam assarapantadas sacudindo do fato novo o resto do açúcar que o último bolo tinha lá deixado.
No ar o crescente cheiro a devoção e misticismo misturava-se com o perfumado cheiro de rosmaninho e demais flores campestres. O sol, bola de fogo ardendo no firmamento sorria enquanto que uma ligeira brisa destapava alguns dos penteados mais trabalhados.
Tudo sorria e parecia cantar esperando os primeiros acordes da centenária banda musical que em breve chegaria.
Na igreja o Padre Domingos não dava para tudo. Afogueado andava de um lado para o outro num torvelinho. Era preciso compor um pouco mais o andor, endireitar aquele ramo de rosas, agrupar as crianças por sítios e por idades. Suava abundantemente e ansiava pela saída da procissão. E os azedos do maldito fígado a virem-lhe à boca…
Ansioso e nervoso, começava a estranhar a demora da música… Costumavam chegar sempre cedo para ensaiar um pouco, afinar as cordas vocais, e desta vez ainda nem sinais!
A sensação de desconforto agudizava-se… parecia-lhe estar com visões, como que flutuando no seu próprio mal-estar, meio ébrio… Começou a ficar amarelo e a ver tudo amarelo à sua volta. Não estranhou, nem reparou neles quando grandes e negros, ladrando e babando-se entraram na igreja. Nas suas bocas negras, cheias de penas, pequenos pintainhos amarelos debatiam-se ainda. Saíram rosnando, medonhos, pela porta lateral deixando no chão da igreja um rasto de penas e pintainhos sangrando. E foi daí que eles começaram a sair. Pequeninos primeiro, crescendo à medida que avançavam, festivamente vestidos de amarelo perfilaram-se em frente à igreja começando a ensaiar os primeiros acordes.
Vieram pedir-lhe se podia começar a procissão, pois a banda já estava a postos e o povo impaciente e cheio de calor…
Quando à noite se foi deitar sentindo o estômago a ladrar de amarelo e foi espreitar o andor verificou que no lugar das flores estavam penas e dezenas de pintainhos mortos…Dormiu durante oito dias seguidos!
Quando acordou e espreitou pelo postigo, o sangue do pintainho tinha secado na soleira da porta transformando-se num pequeno raio de sol amarelo.
A banda musical pingando sangue dos seus instrumentos e sujando-lhe todo o adro da igreja, continuava a tocar……Um povo desgrenhado, urrando e ululando gritava: Aleluia, Aleluia…
Benzeu-se três vezes e foi preparar um chá.
Com limões, forte e amarelo!
Vitor Barros
Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
VII- O CHEIRO A LIMÕES
Desde pequeno que tinha medo da chuva e a pressentia assim que o cheiro forte e intenso a limões verdes saía do limoeiro e se espalhava pelo quintal e tudo quanto era arredores. Desde pequeno, que assim que no horizonte surgia um escuro escorregando do céu, que se refugiava em casa, trancando portas e janelas. Costumava ficar escondido num recanto espreitando o cheiro dos limões e avistando a água a bater na vidraça e correndo pela telha espetada no chão encharcando o imenso limoeiro do quintal e tremendo angustiado por um terror enorme.
Lembrava-se perfeitamente do vento, aquele vento que lhe trazia o cheiro e das primeiras gotas, mal o horizonte as desenhava ainda longe e do terror que lhe inspiravam. Pequenas, brilhantes, trazendo sempre junto aquele cheiro a limões verdes, secando-lhe as brincadeiras obrigando-o a procurar refúgio junto da mãe e a abandonar tudo quanto fosse terreno aberto. Sujeitando-se à quietude de uma oliveira ou de qualquer outra árvore amiga. Assim crescera sempre com medo da chuva um medo irracional que lhe aterrorizava os dias mais escuros. Nunca estava descansado quando por qualquer motivo tinha de sair de casa num desses dias, todas as viagens, todos os passeios toda a sua vida girava em volta da chuva. Já pensara em mudar de terra, mudar de país, mudar de continente mas da única vez em que viajara para longe uma chuva triste e miúda prendera-o durante sete dias num quarto de hotel impregnado de cheiro a limões. Desde pequeno que tinha medo da chuva e desde pequeno que assim que acabava de chover saía saltando e pulando para o quintal onde a oliveira e o limoeiro cheiravam a terra fresca e era debaixo delas que se despia e rebolava na terra, na erva húmida ficando completamente irreconhecível de sujidade e cheirando a ervas e a terra molhada e impregnado com aquele cheiro a limões. Era sempre a mãe que acabava por vir buscá-lo, levantando-o da terra, enxugando-o, lavando-o tirando-lhe da pele o cheiro dos limões, aquecendo-o, fazendo-o voltar à vida.
Agora tudo era diferente, tudo tinha mudado. Tinha descoberto o porquê do seu medo, o porquê do vento trazer com ele aquele cheiro, o porquê de só ele o aspirar, o ver.
Sessenta anos depois estava ansioso. Queria ir juntar-se a eles, arredondar-se, libertar-se definitivamente. O cheiro, ténue ainda avisara-o, mandara-o preparar-se, ela estava chegando, desejava-a, ansiava-a!
Aguardava. O cheiro a limões era cada vez mais intenso, irrespirável quase. Despira-se já completamente e nu de braços abertos em direcção ao céu esperava-a ansioso. Esperou durante oito horas nessa posição e quando finalmente ela chegou, grossa, forte negra e intensa, deixou-se escorregar gota a gota pela telha do limoeiro….Quando a mãe chegou para o enxugar, limpar e secar já tinha subido pelas raízes e lá do alto espalhava o cheiro pelas redondezas.
Nunca mais teve medo da chuva!
Vitor Barros
Lembrava-se perfeitamente do vento, aquele vento que lhe trazia o cheiro e das primeiras gotas, mal o horizonte as desenhava ainda longe e do terror que lhe inspiravam. Pequenas, brilhantes, trazendo sempre junto aquele cheiro a limões verdes, secando-lhe as brincadeiras obrigando-o a procurar refúgio junto da mãe e a abandonar tudo quanto fosse terreno aberto. Sujeitando-se à quietude de uma oliveira ou de qualquer outra árvore amiga. Assim crescera sempre com medo da chuva um medo irracional que lhe aterrorizava os dias mais escuros. Nunca estava descansado quando por qualquer motivo tinha de sair de casa num desses dias, todas as viagens, todos os passeios toda a sua vida girava em volta da chuva. Já pensara em mudar de terra, mudar de país, mudar de continente mas da única vez em que viajara para longe uma chuva triste e miúda prendera-o durante sete dias num quarto de hotel impregnado de cheiro a limões. Desde pequeno que tinha medo da chuva e desde pequeno que assim que acabava de chover saía saltando e pulando para o quintal onde a oliveira e o limoeiro cheiravam a terra fresca e era debaixo delas que se despia e rebolava na terra, na erva húmida ficando completamente irreconhecível de sujidade e cheirando a ervas e a terra molhada e impregnado com aquele cheiro a limões. Era sempre a mãe que acabava por vir buscá-lo, levantando-o da terra, enxugando-o, lavando-o tirando-lhe da pele o cheiro dos limões, aquecendo-o, fazendo-o voltar à vida.
Agora tudo era diferente, tudo tinha mudado. Tinha descoberto o porquê do seu medo, o porquê do vento trazer com ele aquele cheiro, o porquê de só ele o aspirar, o ver.
Sessenta anos depois estava ansioso. Queria ir juntar-se a eles, arredondar-se, libertar-se definitivamente. O cheiro, ténue ainda avisara-o, mandara-o preparar-se, ela estava chegando, desejava-a, ansiava-a!
Aguardava. O cheiro a limões era cada vez mais intenso, irrespirável quase. Despira-se já completamente e nu de braços abertos em direcção ao céu esperava-a ansioso. Esperou durante oito horas nessa posição e quando finalmente ela chegou, grossa, forte negra e intensa, deixou-se escorregar gota a gota pela telha do limoeiro….Quando a mãe chegou para o enxugar, limpar e secar já tinha subido pelas raízes e lá do alto espalhava o cheiro pelas redondezas.
Nunca mais teve medo da chuva!
Vitor Barros
Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008
DOZE QUADRAS
Tendo recebido da minha amiga, conterrânea e mana adoptiva, Isabel Maria o convite para escrever um texto baseado em doze palavras, resolvi não lhe fazer a vontade.
Resolvi procurar na minha memória quadras de um homem que ela sabe que calcorreou caminhos que também nós já pisámos. Que o nosso anterior sangue ouviu e viu.
Que nasceu do povo e cresceu no povo.
Escolhi algumas palavras dela, escolhi algumas quadras dele.
Para a Isabel, doze quadras do ANTÓNIO ALEIXO:
O Homem vive sonhando
Sonhando a vida percorre
E desse SONHO dourado
Só acorda quando morre
Vem da SERRA um infeliz
Vender sêmea por farinha
Passados dias já diz
Esta rua é toda minha
Meu AMOR vê se te ajeitas
A usar meias modernas
Dessas meias que são feitas
Da pele das próprias pernas
Tornaste-te meu AMIGO
Por teres medo de mim
Não posso contar contigo
Não quero amigos assim
Quantas sedas aí vão
Quantos brancos colarinhos
São pedacinhos de PÃO
Roubados aos pobrezinhos
Casado que arrasta a asa
À mulher deste e daquele
Merece que tenha em casa
Outro homem no lugar dele
O rato mete o focinho
Sem saber que faz asneira
Depois ou larga o toucinho
Ou fica na ratoeira
Morre o rico. Tocam sinos
Morre o pobre. Não há dobres
Que Deus é este dos finos
Que não quer saber dos pobres
Para que te não iludas
Com amigos repara nisto
Foi com um beijo que Judas
Levou à cruz Jesus Cristo
Ao chamar-te inteligente
Ficaste desconfiado
Por ser um nome diferente
Dos que estás habituado
És parvo mas és distinto
Só vês bem o que tens perto
Não compreendes que te minto
Quando te trato por esperto?
Quando todos se convençam
Que à força nada se faz
Serão felizes os que pensam
Num mundo de amor e PAZ
De forma completamente aleatória, e correndo o risco de alguma incorrecção, dado estar a escrever de memória aqui fica o meu contributo para que quem eventualmente não conheça a obra de António Aleixo, fique curioso e a vá conhecer melhor.
Deixo uma última quadra para a Isabel, ela sabe porquê e vai comentá-la…
Não há nenhum milionário
Que seja feliz como eu
Tenho como secretário
Um professor de Liceu
Beijinhos e abraços para todos
Vítor Barros
Resolvi procurar na minha memória quadras de um homem que ela sabe que calcorreou caminhos que também nós já pisámos. Que o nosso anterior sangue ouviu e viu.
Que nasceu do povo e cresceu no povo.
Escolhi algumas palavras dela, escolhi algumas quadras dele.
Para a Isabel, doze quadras do ANTÓNIO ALEIXO:
O Homem vive sonhando
Sonhando a vida percorre
E desse SONHO dourado
Só acorda quando morre
Vem da SERRA um infeliz
Vender sêmea por farinha
Passados dias já diz
Esta rua é toda minha
Meu AMOR vê se te ajeitas
A usar meias modernas
Dessas meias que são feitas
Da pele das próprias pernas
Tornaste-te meu AMIGO
Por teres medo de mim
Não posso contar contigo
Não quero amigos assim
Quantas sedas aí vão
Quantos brancos colarinhos
São pedacinhos de PÃO
Roubados aos pobrezinhos
Casado que arrasta a asa
À mulher deste e daquele
Merece que tenha em casa
Outro homem no lugar dele
O rato mete o focinho
Sem saber que faz asneira
Depois ou larga o toucinho
Ou fica na ratoeira
Morre o rico. Tocam sinos
Morre o pobre. Não há dobres
Que Deus é este dos finos
Que não quer saber dos pobres
Para que te não iludas
Com amigos repara nisto
Foi com um beijo que Judas
Levou à cruz Jesus Cristo
Ao chamar-te inteligente
Ficaste desconfiado
Por ser um nome diferente
Dos que estás habituado
És parvo mas és distinto
Só vês bem o que tens perto
Não compreendes que te minto
Quando te trato por esperto?
Quando todos se convençam
Que à força nada se faz
Serão felizes os que pensam
Num mundo de amor e PAZ
De forma completamente aleatória, e correndo o risco de alguma incorrecção, dado estar a escrever de memória aqui fica o meu contributo para que quem eventualmente não conheça a obra de António Aleixo, fique curioso e a vá conhecer melhor.
Deixo uma última quadra para a Isabel, ela sabe porquê e vai comentá-la…
Não há nenhum milionário
Que seja feliz como eu
Tenho como secretário
Um professor de Liceu
Beijinhos e abraços para todos
Vítor Barros
Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008
VI- AMORES-PERFEITOS
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca
Naquele recanto matizado de paz e flores, cabelos suaves moldando o vento ela brinca! Colhe flores, vê a vida rumorejar. (Parecem-me malmequeres, margaridas, tulipas?!)
À beira do vento, suavemente em paz, damos as mãos (macias, pequenas as tuas) e olhamos.
Como está feliz….uma borboleta branca voa à sua volta.
Entardecendo silenciosos, ouvimos os nossos corações a respirar no opaco entardecer daquele fim de dia. Suavemente também, uns fios brancos navegam no calmo oceano louro do teu cabelo. Enternecidos os meus escutam o teu doce navegar.
Amo-te.
Nunca te ofereci rosas (ela brinca nas flores, margaridas?) nem flores bonitas. Nunca te fiz um poema, nem te levei a jantar a restaurantes onde as velas tremessem com o respirar da nossa paixão. Nunca te comprei aquele vestido vermelho com que ofuscasses o sol. Nunca.
Nunca te escrevi uma carta de amor, nunca me ajoelhei aos teus pés cantando hinos de amor. Nunca.
Nunca te levei àquele concerto, nunca fomos ver aquele quadro famoso, aquela ópera, aquele bailado….
Ela brinca suave. Pelo canto do olho espreita-nos. Colhe flores. (malmequeres, tulipas, cravos?!) Nunca….
Aperto-te a mão com mais força. Olho-te nos olhos. Olhas para mim sorrindo.
Amo-te! Os teus olhos são verdes, lindos…têm flores, (malmequeres?) poemas escondidos, borboletas brancas a esvoaçar.
Ela salta feliz, aproxima-se. Olha-nos, vê as nossas mãos apertadas sorri. Salta.
Não falamos não é preciso. Sinto a tua mão na minha…doce, quente!
Olhas-me e eu sei tudo. Olho-te e sei que sabes tudo...
Ele está ali. O poema que não te escrevi, as flores que não colhi para te oferecer, as velas tremendo com o calor da nossa paixão, o grito de amor, a tela mais bela, a mais bela melodia, o melhor tango.
O sorriso mais puro. O mais doce. A vida rumorejando.
Amo-te e tu sabes! Sabes que como o poema diz, continuas a ser alma e sangue e vida em mim, que continuo a amar-te perdidamente, perdidamente. Sabes que em fundo continua a mesma música, a mesma Ave-Maria de Schubert, no meio dela a mesma frase: Até que a morte os separe.
Até ao fim perdidamente,
Aproxima-se feliz, suave e docinha pega-nos nas mãos (rudes grandes, desajeitadas as minhas) e em cada uma deixa uma flor:
Amores-perfeitos!
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca
Naquele recanto matizado de paz e flores, cabelos suaves moldando o vento ela brinca! Colhe flores, vê a vida rumorejar. (Parecem-me malmequeres, margaridas, tulipas?!)
À beira do vento, suavemente em paz, damos as mãos (macias, pequenas as tuas) e olhamos.
Como está feliz….uma borboleta branca voa à sua volta.
Entardecendo silenciosos, ouvimos os nossos corações a respirar no opaco entardecer daquele fim de dia. Suavemente também, uns fios brancos navegam no calmo oceano louro do teu cabelo. Enternecidos os meus escutam o teu doce navegar.
Amo-te.
Nunca te ofereci rosas (ela brinca nas flores, margaridas?) nem flores bonitas. Nunca te fiz um poema, nem te levei a jantar a restaurantes onde as velas tremessem com o respirar da nossa paixão. Nunca te comprei aquele vestido vermelho com que ofuscasses o sol. Nunca.
Nunca te escrevi uma carta de amor, nunca me ajoelhei aos teus pés cantando hinos de amor. Nunca.
Nunca te levei àquele concerto, nunca fomos ver aquele quadro famoso, aquela ópera, aquele bailado….
Ela brinca suave. Pelo canto do olho espreita-nos. Colhe flores. (malmequeres, tulipas, cravos?!) Nunca….
Aperto-te a mão com mais força. Olho-te nos olhos. Olhas para mim sorrindo.
Amo-te! Os teus olhos são verdes, lindos…têm flores, (malmequeres?) poemas escondidos, borboletas brancas a esvoaçar.
Ela salta feliz, aproxima-se. Olha-nos, vê as nossas mãos apertadas sorri. Salta.
Não falamos não é preciso. Sinto a tua mão na minha…doce, quente!
Olhas-me e eu sei tudo. Olho-te e sei que sabes tudo...
Ele está ali. O poema que não te escrevi, as flores que não colhi para te oferecer, as velas tremendo com o calor da nossa paixão, o grito de amor, a tela mais bela, a mais bela melodia, o melhor tango.
O sorriso mais puro. O mais doce. A vida rumorejando.
Amo-te e tu sabes! Sabes que como o poema diz, continuas a ser alma e sangue e vida em mim, que continuo a amar-te perdidamente, perdidamente. Sabes que em fundo continua a mesma música, a mesma Ave-Maria de Schubert, no meio dela a mesma frase: Até que a morte os separe.
Até ao fim perdidamente,
Aproxima-se feliz, suave e docinha pega-nos nas mãos (rudes grandes, desajeitadas as minhas) e em cada uma deixa uma flor:
Amores-perfeitos!
Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008
V-MEMÓRIAS
“Casei a três de Dezembro de mil novecentos e cinquenta e um e logo no dia a segui, de manhã, fui à água à Fonte com um cântaro em cima dos ombros e um balde nos braços. Tinha de subir uma grande ladeira antes de chegar a casa cansada e carregada como um burro de carga. Durante o dia quando o teu pai ia trabalhar e eu ficava em casa, de manhã ia à água e à lenha para quando a noite chegasse começar a fazer as papas. Eram feitas num tacho de arame amarelo no fogo a lenha, com um candeeiro de petróleo ao lado, numa fornalha que está no alpendre e que ainda hoje lá podes ver.
Á noite deitava os grãos de molho e de manhã começava a mesma vida: Punha os grãos a cozer e enquanto eles coziam ia à lenha pelas terras em volta.
Deixava ficar a panela de barro em cima do fogão e eles lá ficavam cozendo…Chegava com a lenha e lá ia buscar outro cântaro de água para de tarde ir trabalhar e vá de assoprar o fogo para os grãos cozerem. Ás vezes já estava quase apagado, e os grãos se deixassem de cozer encruavam e já não se davam cozidos…porém estava sempre a púcara de água ao lado da panela para ter quente e não se deitar água fria… e era assim a minha vida e foi assim ao longo de alguns anos. De noite, enquanto as papas arrefeciam, moía o milho para as papas do dia seguinte…voltando aos grãos, por vezes tinham de se esfregar com uma rolha de cortiça para ficarem um pouco mais macios e com umas pedrinhas de sal. Depois tirava-lhes as peles para irem para a panela já um pouco mais macios e cozerem um pouco melhor. O seu tempero quase sempre era um pouco de azeite, quando a fervura levantava, e depois um bocadinho de toucinho e chouriço quando havia. Quando não havia era só com azeite. Mais tarde nasceu a tua irmã e a vida continuou igual e por vezes ainda pior. No Inverno por vezes não havia trabalho, chovia e fazia frio. As coisas que tinha eram muito poucas para nos proteger do frio, a lenha estava molhada e meio verde. Naquele tempo era muito raro arranjar lenha…Quem não tinha terras com árvores ia ás das outras pessoas mas quase sempre às escondidas pois a lenha era na altura um bem raro e precioso, era mesmo muito complicado…. As roupas da tua irmã eram secas ao pé do fogo, por vezes em cima dos joelhos, para apanharem mais calor. Não havia muita roupa e a pouca que havia não conseguia secar. Punham-se as fraldas, que se chamavam cueiros, uma de pano fino e outra de flanela entre as nossas mantas para secarem com o nosso calor. No berço para ensopar a urina púnhamos uns bocados de roupa como a fralda da camisa do pai ou as calças…pois não havia nada, nada! A tua irmã passou muito frio especialmente no tempo da apanha da azeitona. Eu tinha de a levar comigo, por vezes ia enrolada nas sacas que levava para as despejar. Enfim as pessoas da época de agora não sabem dar o valor à vida e nem lhe parecem que isto seja verdade. Mas isto é só uma pequena amostra e quando me ponho a pensar o que passei aqui nesta mesma casa dava para muitos, muitos livros. Pois passei por tudo um pouco, mas também digo, tive sempre pessoas mais velhas que me visitavam e aconselhavam pois havia amizade e solidariedade entre as pessoas como agora já não existe. “
Memórias da minha mãe 1951/52
Até breve!
Á noite deitava os grãos de molho e de manhã começava a mesma vida: Punha os grãos a cozer e enquanto eles coziam ia à lenha pelas terras em volta.
Deixava ficar a panela de barro em cima do fogão e eles lá ficavam cozendo…Chegava com a lenha e lá ia buscar outro cântaro de água para de tarde ir trabalhar e vá de assoprar o fogo para os grãos cozerem. Ás vezes já estava quase apagado, e os grãos se deixassem de cozer encruavam e já não se davam cozidos…porém estava sempre a púcara de água ao lado da panela para ter quente e não se deitar água fria… e era assim a minha vida e foi assim ao longo de alguns anos. De noite, enquanto as papas arrefeciam, moía o milho para as papas do dia seguinte…voltando aos grãos, por vezes tinham de se esfregar com uma rolha de cortiça para ficarem um pouco mais macios e com umas pedrinhas de sal. Depois tirava-lhes as peles para irem para a panela já um pouco mais macios e cozerem um pouco melhor. O seu tempero quase sempre era um pouco de azeite, quando a fervura levantava, e depois um bocadinho de toucinho e chouriço quando havia. Quando não havia era só com azeite. Mais tarde nasceu a tua irmã e a vida continuou igual e por vezes ainda pior. No Inverno por vezes não havia trabalho, chovia e fazia frio. As coisas que tinha eram muito poucas para nos proteger do frio, a lenha estava molhada e meio verde. Naquele tempo era muito raro arranjar lenha…Quem não tinha terras com árvores ia ás das outras pessoas mas quase sempre às escondidas pois a lenha era na altura um bem raro e precioso, era mesmo muito complicado…. As roupas da tua irmã eram secas ao pé do fogo, por vezes em cima dos joelhos, para apanharem mais calor. Não havia muita roupa e a pouca que havia não conseguia secar. Punham-se as fraldas, que se chamavam cueiros, uma de pano fino e outra de flanela entre as nossas mantas para secarem com o nosso calor. No berço para ensopar a urina púnhamos uns bocados de roupa como a fralda da camisa do pai ou as calças…pois não havia nada, nada! A tua irmã passou muito frio especialmente no tempo da apanha da azeitona. Eu tinha de a levar comigo, por vezes ia enrolada nas sacas que levava para as despejar. Enfim as pessoas da época de agora não sabem dar o valor à vida e nem lhe parecem que isto seja verdade. Mas isto é só uma pequena amostra e quando me ponho a pensar o que passei aqui nesta mesma casa dava para muitos, muitos livros. Pois passei por tudo um pouco, mas também digo, tive sempre pessoas mais velhas que me visitavam e aconselhavam pois havia amizade e solidariedade entre as pessoas como agora já não existe. “
Memórias da minha mãe 1951/52
Até breve!
Sábado, 12 de Janeiro de 2008
IV- O COMBOIO
Guardei o bilhete no interior do bolso do casaco e só então reparei no estranho sorriso do esquálido funcionário que mo entregara. Magro, muito alto, com a boca ao lado, uma cicatriz atravessando uma das faces e um olho negro e inchado de onde escorria um já seco fio de sangue! Num canto do cubículo onde se sentava, as teias de aranha tinham coberto tudo de longos e emaranhados fios cinzentos. Uma pilha de jornais antigos e duas velhas cadeiras acomodavam um velho e negro chapéu. Parecia que tinha estado à minha espera e que havia anos que não atendia ninguém nem saía daquele buraco! Parecia na sua boca negra e torta que saboreava a minha chegada como se eu fosse o dia da sua salvação da sua libertação.
Entrei no comboio e sentei-me no primeiro banco que achei disponível. Ao meu lado, reparei depois, uma mulher loura, de desbotado vestido azul e longas unhas salpicadas de vermelho, olhou-me com espanto e sorriu-me iluminando uma enorme boca desprovida de qualquer beleza ou emoção. Todos os lugares estavam ocupados dentro da enorme carruagem! Uma aragem a loucura entrava pelas janelas abertas e todos me sorriam e parecia quererem fazer-me festas e perguntas. Parecia que havia anos que ninguém entrava naquele comboio.
Partimos e imediatamente me apercebi de que algo de estranho se passava. O comboio não circulava como todos os comboios em que anteriormente andara. Parecia que andava para trás e a uma velocidade tal que lá fora tudo parecia voar tentando acompanhar-nos mas tudo desaparecia desfeito e engolido por uma imensa nuvem de pó. Estranhamente ninguém parecia reparar ou estranhar esse facto e quando me levantei para observar melhor o que se passava, todos os restantes estranhos passageiros se levantaram ao mesmo tempo parecendo irem precipitar-se furiosos na minha direcção.
Tornei a sentar-me o que fez com que todos novamente e em simultâneo o fizessem também e só então reparei melhor na minha companheira de viagem. Parecia ler uma revista e apesar de ser uma revista em bom estado, tratava-se de um número muito antigo com talvez mais de vinte anos de uma publicação que já há muito saíra de circulação. No banco ao lado um sujeito vestido de amarelo abria e fechava as mãos sem parar, enquanto ao seu lado uma rapariga parecia estar a pentear-se utilizando uma das mãos como um minúsculo espelho e a outro como um imaginário pente. Num dos bancos laterais um casal de idosos caçava moscas com um elástico enquanto mais à frente um jovem desgrenhado simulava a celebração de uma missa.
Lá fora, entretanto, a paisagem tinha-se transformado. O verde das árvores, o colorido da vegetação e das flores, fora substituído por uma terra negra e fria sem sinal de vida. Ao fundo um vermelho sangue parecia ter desabado de um sol longínquo. Enormes pássaros vermelhos voavam sobre nós enquanto nos aproximávamos do imenso mar de fogo que no horizonte se desenhava.
Levantei-me e caminhei um pouco pelo corredor tentando chegar à porta e sentindo-me perseguido pelo olhar de todos os restantes ocupantes. Quando finalmente lá cheguei espreitei e encostado a ela, alto e muito magro com a boca ao lado e teias de aranha no fio de sangue que lhe escorria do negro olho, o esquálido funcionário que me tinha vendido o bilhete esperava-me!
Surpreendido e sem tempo para reagir senti-me agarrado pelo pescoço e arremessado voando porta fora em direcção ao imenso lago vermelho de sangue. Por um canto do olho ainda o consegui ver a avançar no interior da carruagem onde toda a gente ria e gritava alegremente. A orquestra começara a tocar e ele com um olho raiado de sangue, negro e cheio de teias de aranha, de cicatriz e boca negra ao lado, dançava com a senhora loira e à volta todos batiam palmas, gritavam e cantavam pulando.
Levantei-me e caminhei apressado. Cheguei à estação, pedi novo bilhete e fiquei esperando, de olho negro, cicatriz na cara, levando numa das mãos, uma nova revista e na outra um lindo vestido azul salpicado de unhas vermelhas….
Até Breve.....
Entrei no comboio e sentei-me no primeiro banco que achei disponível. Ao meu lado, reparei depois, uma mulher loura, de desbotado vestido azul e longas unhas salpicadas de vermelho, olhou-me com espanto e sorriu-me iluminando uma enorme boca desprovida de qualquer beleza ou emoção. Todos os lugares estavam ocupados dentro da enorme carruagem! Uma aragem a loucura entrava pelas janelas abertas e todos me sorriam e parecia quererem fazer-me festas e perguntas. Parecia que havia anos que ninguém entrava naquele comboio.
Partimos e imediatamente me apercebi de que algo de estranho se passava. O comboio não circulava como todos os comboios em que anteriormente andara. Parecia que andava para trás e a uma velocidade tal que lá fora tudo parecia voar tentando acompanhar-nos mas tudo desaparecia desfeito e engolido por uma imensa nuvem de pó. Estranhamente ninguém parecia reparar ou estranhar esse facto e quando me levantei para observar melhor o que se passava, todos os restantes estranhos passageiros se levantaram ao mesmo tempo parecendo irem precipitar-se furiosos na minha direcção.
Tornei a sentar-me o que fez com que todos novamente e em simultâneo o fizessem também e só então reparei melhor na minha companheira de viagem. Parecia ler uma revista e apesar de ser uma revista em bom estado, tratava-se de um número muito antigo com talvez mais de vinte anos de uma publicação que já há muito saíra de circulação. No banco ao lado um sujeito vestido de amarelo abria e fechava as mãos sem parar, enquanto ao seu lado uma rapariga parecia estar a pentear-se utilizando uma das mãos como um minúsculo espelho e a outro como um imaginário pente. Num dos bancos laterais um casal de idosos caçava moscas com um elástico enquanto mais à frente um jovem desgrenhado simulava a celebração de uma missa.
Lá fora, entretanto, a paisagem tinha-se transformado. O verde das árvores, o colorido da vegetação e das flores, fora substituído por uma terra negra e fria sem sinal de vida. Ao fundo um vermelho sangue parecia ter desabado de um sol longínquo. Enormes pássaros vermelhos voavam sobre nós enquanto nos aproximávamos do imenso mar de fogo que no horizonte se desenhava.
Levantei-me e caminhei um pouco pelo corredor tentando chegar à porta e sentindo-me perseguido pelo olhar de todos os restantes ocupantes. Quando finalmente lá cheguei espreitei e encostado a ela, alto e muito magro com a boca ao lado e teias de aranha no fio de sangue que lhe escorria do negro olho, o esquálido funcionário que me tinha vendido o bilhete esperava-me!
Surpreendido e sem tempo para reagir senti-me agarrado pelo pescoço e arremessado voando porta fora em direcção ao imenso lago vermelho de sangue. Por um canto do olho ainda o consegui ver a avançar no interior da carruagem onde toda a gente ria e gritava alegremente. A orquestra começara a tocar e ele com um olho raiado de sangue, negro e cheio de teias de aranha, de cicatriz e boca negra ao lado, dançava com a senhora loira e à volta todos batiam palmas, gritavam e cantavam pulando.
Levantei-me e caminhei apressado. Cheguei à estação, pedi novo bilhete e fiquei esperando, de olho negro, cicatriz na cara, levando numa das mãos, uma nova revista e na outra um lindo vestido azul salpicado de unhas vermelhas….
Até Breve.....
Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007
III-MEMÓRIAS
Quando fiz os treze anos de idade e comecei a trabalhar na ceifa aquele já não era o meu primeiro patrão.
Assim aos treze anos de idade comecei a ceifar junto às mulheres crescidas e tinha deixado de ser criança antes de ter tido tempo de saber o que isso era. Junto a elas, às mulheres crescidas, (também não foram meninas) envergonhada, suando e chorando via o sol baixar lentamente, sinal de que o meu pequeno e fraco corpo teria direito à sombra e ao descanso que a noite me iria trazer. Antes ainda, o tacho com as papas de milho rodaria em cima da banca de madeira devolvendo ao meu partido e menino corpo alguma da força deixada junto aos molhos loiros de trigo.
Naquela época era o sol que servia de relógio para se começar e acabar a labuta.
Passados os primeiros e breves anos, após aprender a juntar algumas letras, o trabalho esperava-me. Quando no meio do loiro campo a posição era no meio das maduras mulheres, moças companheiras de labuta, a tarefa ainda era mais difícil pois não havia um minuto de descanso, nas pontas do terreno a tarefa era melhor um pouco menos dura.
E o nosso patrão sempre por perto olhando, montado no seu burrito:
-têm sede moças, querem água….querem água. Bebam, bebam, uma de cada vez!
O melhor de tudo é que passados quase setenta anos ainda falo disto com saudades e com alegria..
(Memorias da minha mãe 1944/45)
“Vai-te sol, vai-te sol
Lá pra trás do barracão
És alegria prá gente
E tristeza pró patrão
Gaibéus
Alves Redol
Assim aos treze anos de idade comecei a ceifar junto às mulheres crescidas e tinha deixado de ser criança antes de ter tido tempo de saber o que isso era. Junto a elas, às mulheres crescidas, (também não foram meninas) envergonhada, suando e chorando via o sol baixar lentamente, sinal de que o meu pequeno e fraco corpo teria direito à sombra e ao descanso que a noite me iria trazer. Antes ainda, o tacho com as papas de milho rodaria em cima da banca de madeira devolvendo ao meu partido e menino corpo alguma da força deixada junto aos molhos loiros de trigo.
Naquela época era o sol que servia de relógio para se começar e acabar a labuta.
Passados os primeiros e breves anos, após aprender a juntar algumas letras, o trabalho esperava-me. Quando no meio do loiro campo a posição era no meio das maduras mulheres, moças companheiras de labuta, a tarefa ainda era mais difícil pois não havia um minuto de descanso, nas pontas do terreno a tarefa era melhor um pouco menos dura.
E o nosso patrão sempre por perto olhando, montado no seu burrito:
-têm sede moças, querem água….querem água. Bebam, bebam, uma de cada vez!
O melhor de tudo é que passados quase setenta anos ainda falo disto com saudades e com alegria..
(Memorias da minha mãe 1944/45)
“Vai-te sol, vai-te sol
Lá pra trás do barracão
És alegria prá gente
E tristeza pró patrão
Gaibéus
Alves Redol
Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007
II-MEMÓRIAS
E assim ia decorrendo a minha vida… Já rapariguita de treze anos ia ceifar com algumas mulheres mais velhas e com os homens, como o António Pinto o Manuel Mendes e o Chico Louro. O pior foi uma tarde quando estava a ceifar e comecei com uma grande dor de barriga… lá fui para detrás de um valado urinar e vi sangue e não sabia o que fazer nem dizer. Depois lembrei-me de uma conversa que tinha ouvido à minha irmã Maria José com umas raparigas da idade dela e pensei que era o que elas estavam a falar na altura. Mas no meio daquela serra eu não podia fazer nada e para lá me aguentei. Cheguei a casa e nada disse, mas durante a noite e no outro dia era mais e mais. Aqui, não me lembro bem se falei alguma coisa com a minha mana, eu só sei que arranjei um bocado de trapo e lá fui eu ceifar, para a Herdade das Ladeiras, outra vez. Quando íamos no caminho o desgraçado do trapo caiu e as mulheres que iam ao meu lado, a Maria Isabel e outras lá me empurraram para eu ficar atrás e para ali aconcheguei aquilo. Ela depois, assim que pode falar comigo sem os homens se aperceberem, lá me disse que segurasse o trapo com um pregador ou então o cozesse com um bocado de linha linha. Já foi uma boa lição e resolvi mais ou menos o meu problema. O pior era à noite quando voltava para me lavar com uma pinguinha de água no fundo de um cocharro de cortiça que tinha de dar para todas se lavarem e mais outra pinguinha às escondidas sem os pais saberem e lá ia eu debaixo da oliveira lavar o dito trapo e as cuecas para enxugarem durante a noite para no outro dia vestir outra vez. Só devia ter dois pares e era também para os pais não saberem pois era uma grande vergonha…...
(Memórias da minha mãe 1943/1944)
(Memórias da minha mãe 1943/1944)
Domingo, 25 de Novembro de 2007
I-MEMÓRIAS
Quando tinha dez ou onze anos e ainda andava na escola primária ia com o meu mano, o José, e a mana Luciene, ao fim da tarde e aos fins-de-semana, guardar as ovelhas nos arrifes das terras que estavam ou tinham sido semeadas. Nos arrifes, como essas terras tinham sido semeadas havia melhor comida para o gado. Havia palhagueiras, resmonos, alguns cardos novos, sadalias, tomilhos e bastantes ervas tenrinhas que por lá nasciam e cresciam. Tínhamos de ir caladinhos para os donos não saberem pois era tudo tão controlado e guardado que os donos até sabiam as ervas que lá tinham.
Quando o meu mano mais novo nasceu, o José e a Luciene tinham ido com as ovelhas para o Cerro da Zorra. Eu não me lembro onde estava mas parece-me que tinha ido à venda buscar algumas compras.
O nosso pai tinha-lhes dito para irem com as ovelhas e que quando tivessem sede que viesse um de cada vez beber pois não podiam deixar as ovelhas sozinhas. Andávamos guardando nelas, mas era com elas à mão, com uma corda para elas não irem comer as sementes. Naquela zona do Cerro da Zorra haviam bons arrifes na terra do Chico de Jesus e na do Zé Afonso pois eram os donos de mais longe e não iam todos os dias ver as sementes. O meu irmão José, nesse dia em que o Faustino nasceu, fez que tinha sede e lá veio ele a casa beber pois andava desconfiado que ia nascer a criança mas não viu a mãe só viu uma grande panela de água ao fogo. Foi dizendo à Luciene: Já sei que a mãe vai parir o moço.
Depois ao fim de um bocado veio a Luciene e viu uma velha ir deitar a água cheia de sangue para o pocilgo. Diz ela que a velha tinha umas saias grandes negras e rodadas. Quando nos juntámos à noite, tudo muito caladinho veio o nosso pai lá de dentro e disse que já tínhamos mais um irmão: Chama-se Faustino.
Em silêncio continuámos a comer as papas….
(Memórias da Minha Mãe 1940/1941)
Quando o meu mano mais novo nasceu, o José e a Luciene tinham ido com as ovelhas para o Cerro da Zorra. Eu não me lembro onde estava mas parece-me que tinha ido à venda buscar algumas compras.
O nosso pai tinha-lhes dito para irem com as ovelhas e que quando tivessem sede que viesse um de cada vez beber pois não podiam deixar as ovelhas sozinhas. Andávamos guardando nelas, mas era com elas à mão, com uma corda para elas não irem comer as sementes. Naquela zona do Cerro da Zorra haviam bons arrifes na terra do Chico de Jesus e na do Zé Afonso pois eram os donos de mais longe e não iam todos os dias ver as sementes. O meu irmão José, nesse dia em que o Faustino nasceu, fez que tinha sede e lá veio ele a casa beber pois andava desconfiado que ia nascer a criança mas não viu a mãe só viu uma grande panela de água ao fogo. Foi dizendo à Luciene: Já sei que a mãe vai parir o moço.
Depois ao fim de um bocado veio a Luciene e viu uma velha ir deitar a água cheia de sangue para o pocilgo. Diz ela que a velha tinha umas saias grandes negras e rodadas. Quando nos juntámos à noite, tudo muito caladinho veio o nosso pai lá de dentro e disse que já tínhamos mais um irmão: Chama-se Faustino.
Em silêncio continuámos a comer as papas….
(Memórias da Minha Mãe 1940/1941)
Domingo, 18 de Novembro de 2007
NASCEU MAIS UM BLOG...
Nasceu mais um Blog!
Sabe, meu filho, até hoje não tive tempo para brincar com você. Arranjei tempo para tudo, menos para ver você crescer. Nunca joguei dominó, dama, xadrez ou batalha naval com você. Percebo que você me rodeia, mas sabe, sou muito importante e não tenho tempo.Sou importante para números, conversas sociais, uma série decompromissos inadiáveis... E largar tudo isso para sentar no chão com você... Não, não tenho tempo! Um dia você veio com um caderno da escola para o meu lado. Não liguei, continuei lendo o jornal. Afinal, os problemas internacionais são mais sérios que os da minha casa.Nunca vi seu boletim nem sei quem é a sua professora. Não sei nem qual foi sua primeira palavra; também, você entende... Não tenho tempo...De que adianta saber as mínimas coisas de você se eu tenho outras grandes coisas a saber?Puxa, como você cresceu! Você já passou da minha cintura, está alto! Eu não havia reparado nisso. Aliás, não reparo em quase nada, minha vida é corrida. E quando tenho tempo, prefiro usá-lo lá fora. E se o uso aqui,perco-me diante da TV. A TV é importante e me informa muito...Sabe, filho, a última vez que tive tempo para você, foi numa cama, quando o fizemos!Sei que você se queixa, que você sente falta de uma palavra, de uma pergunta minha, de um corre-corre, de um chute na bola. Mas eu não tenho tempo...Sei que você sente falta do abraço e do riso, de andar a pé até a padaria, para comprar guaraná. De andar a pé até o jornaleiro para comprar "Pato Donald". Mas, sabe, há quanto tempo não ando a pé na rua? Não tenho tempo...Mas você entende, sou um homem importante. Tenho que dar atenção a muita gente. Dependo delas... Filho, você não entende de comércio! Na realidade, sou um homem sem tempo!Sei que você fica chateado, porque as poucas vezes que falamos é monólogo, só eu falo. E noventa por cento é bronca: quero silêncio, quero sossego! E você tem a péssima mania de vir correndo sobre a gente. Você tem mania de querer pular nos braços dos outros... Filho, não tenho tempo para abraçá-lo.Não tenho tempo para ficar com papo-furado com criança. Filho, o que você entende de computador, comunicação, cibernética,racionalismo? Você sabe quem é Marcuse, Mc Luhan?Como é que vou parar para conversar com você? Sabe, filho, nãotenho tempo, mas o pior de tudo, o pior de tudo é que... Se você morresse agora, já, neste momento, eu ficaria com um peso na consciência, porque, até hoje, não arrumei tempo para brincar com você.E, na outra vida, por certo, Deus não TERÁ TEMPO de me deixar, pelo menos, Vê-lo!
(Autor: Neimar de Barros)
Nele irei tentar publicar alguns textos...Brevemente!
Por favor não digam: NÃO TENHO TEMPO
Porque:
Sabe, meu filho, até hoje não tive tempo para brincar com você. Arranjei tempo para tudo, menos para ver você crescer. Nunca joguei dominó, dama, xadrez ou batalha naval com você. Percebo que você me rodeia, mas sabe, sou muito importante e não tenho tempo.Sou importante para números, conversas sociais, uma série decompromissos inadiáveis... E largar tudo isso para sentar no chão com você... Não, não tenho tempo! Um dia você veio com um caderno da escola para o meu lado. Não liguei, continuei lendo o jornal. Afinal, os problemas internacionais são mais sérios que os da minha casa.Nunca vi seu boletim nem sei quem é a sua professora. Não sei nem qual foi sua primeira palavra; também, você entende... Não tenho tempo...De que adianta saber as mínimas coisas de você se eu tenho outras grandes coisas a saber?Puxa, como você cresceu! Você já passou da minha cintura, está alto! Eu não havia reparado nisso. Aliás, não reparo em quase nada, minha vida é corrida. E quando tenho tempo, prefiro usá-lo lá fora. E se o uso aqui,perco-me diante da TV. A TV é importante e me informa muito...Sabe, filho, a última vez que tive tempo para você, foi numa cama, quando o fizemos!Sei que você se queixa, que você sente falta de uma palavra, de uma pergunta minha, de um corre-corre, de um chute na bola. Mas eu não tenho tempo...Sei que você sente falta do abraço e do riso, de andar a pé até a padaria, para comprar guaraná. De andar a pé até o jornaleiro para comprar "Pato Donald". Mas, sabe, há quanto tempo não ando a pé na rua? Não tenho tempo...Mas você entende, sou um homem importante. Tenho que dar atenção a muita gente. Dependo delas... Filho, você não entende de comércio! Na realidade, sou um homem sem tempo!Sei que você fica chateado, porque as poucas vezes que falamos é monólogo, só eu falo. E noventa por cento é bronca: quero silêncio, quero sossego! E você tem a péssima mania de vir correndo sobre a gente. Você tem mania de querer pular nos braços dos outros... Filho, não tenho tempo para abraçá-lo.Não tenho tempo para ficar com papo-furado com criança. Filho, o que você entende de computador, comunicação, cibernética,racionalismo? Você sabe quem é Marcuse, Mc Luhan?Como é que vou parar para conversar com você? Sabe, filho, nãotenho tempo, mas o pior de tudo, o pior de tudo é que... Se você morresse agora, já, neste momento, eu ficaria com um peso na consciência, porque, até hoje, não arrumei tempo para brincar com você.E, na outra vida, por certo, Deus não TERÁ TEMPO de me deixar, pelo menos, Vê-lo!
(Autor: Neimar de Barros)
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